15.12.20

Resenha: O Jardim Secreto - Frances Hodgson Burnett


A HISTÓRIA

Mary Lennox nasceu e viveu seus primeiros anos de vida na Índia. Apesar de ser servida como uma princesa pelos criados locais, ela é praticamente ignorada pelos próprios pais e uma criança mimada e amarga.

A vida de Mary muda completamente quando os pais falecem e os empregados abandonam a casa. A garota indesejada acaba sendo enviada para viver com um parente distante na mansão Misselthwaite, em Yorkshire, Inglaterra. O tio que sequer sabia da sua existência é um um homem estranho e triste, que quase nunca está em casa.

Em um lugar novo, sombrio e cujo sotaque não entende, Mary se vê mais uma vez indesejada e um incômodo para todos. Uma das criadas e o jardineiro até são ocasionalmente gentis com ela, mas no geral Mary fica a própria sorte em uma casa com muitos quartos abandonados e jardim com pouca vida graças ao rigoroso inverno inglês.

"— Eu roubei um jardim! - disse, muito rápido. — Não é meu. Não é de ninguém. Ninguém quer saber mais dele, ninguém cuida, ninguém sequer entra lá. Talvez tudo no jardim já esteja morto. (...) Mas eu não me importo, não mesmo. Ninguém tem o direito de tirá-lo de mim, sou eu que cuido dele, e não eles." pág. 83

Tudo muda quando Mary descobre que, no jardim, há um espaço trancando, cuja porta e chave se perderam para sempre. A garota fica obcecada em encontrar a entrada, tanto em descobrir de quem é o choro agoniante que escuta pelos corredores da mansão. Ter objetivos trazem Mary de volta a vida e a garotinha antes insuportável se torna uma criança curiosa e alegre de verdade.

Mas o efeito do jardim secreto não é sentido só em Mary. Em breve ele afetará também Dickon, um garoto local com um talento nato para plantas e animais. Além disso, Mary descobre a existência de outro garotinho na casa, o triste Colin, cuja doença misteriosa o tornou tão amargo quanto Mary era. Entretanto, com rosas selvagens a serem podadas e todo um jardim secreto para ser descoberto, Colin será, como Mary, salvo pelo poder da natureza e, claro, da amizade.


A NARRATIVA E A TRAMA

O Jardim Secreto é um clássico da literatura infantil, do que eu já tinha ouvido falar, mas nunca lido. E fiquei feliz que conhecer a obra, que mesmo não sendo perfeita, é cativante e emocionante.

O início do livro é um pouco lento, ainda mais com Mary, a protagonista, sendo uma pequena insuportável. Mas o efeito do jardim em Mary é sentido no leitor também. Conforme nos enveredamos pelo mistério da mansão e do jardim trancado, a leitura fica mais vívida e cativante, além de divertida.

O Jardim Secreto tem tanto momentos bem-humorados e de amizade como de suspense, tensão psicológica e, claro, superação. A obra nos provoca uma boa gama de emoções, desde o tédio do começo devagar até angústia pelo sofrimento dos personagens, raivas pelo seus erros e alegria por vê-los encontrar seu final feliz.

A narração de O Jardim Secreto, em terceira pessoa, é um pouco cansativa com suas intermináveis descrições. Contudo, é esperado que em um livro cujo cenário é o gatilho das mudanças nos personagens, que encontrássemos descrições sem fim de flores e dos personagens da trama. A autora também se prolonga demais em algumas reflexões dos e sobre os personagens, mas compensa tudo isso com capítulos curtos.


RACISMO, DEFICIÊNCIA E SAÚDE MENTAL EM O JARDIM SECRETO

A leitura me causou sentimentos bem conflitantes justamente quanto as mensagens que encontramos entrelinhas. Nesta edição, inclusive, há no começo um aviso sobre termos depreciativos usados em relação a pessoas não-brancas.

Sim, O Jardim Secreto foi publicado em 1911, o que de maneira alguma deveria desculpar o racismo em sua narrativa. É claro que compreendemos que, naquele momento, ainda mais para uma autora inglesa branca de família abastada, racismo não era um tema do dia a dia. Contudo, movimentos contra preconceito racial já existiam na época, mesmo que a autora não tenha sido atingidos por eles.

Assim, por mais que possa compreender Frances Hodgson Burnett pelo modo grotesco que fala dos indianos e pessoas não-brancas, não significa que devemos perdoar o livro por seu racismo e muito menos que não devemos avisar os leitores sobre estas passagens indigestas.

O mesmo vale para o modo como personagens com deficiência são tratados na trama. O tio de Mary é descrito como "corcunda", sendo Colin aparentemente fadado ao mesmo destino trágico. A princípio, Colin de fato nos parece ter alguma deficiência: ele mal consegue se manter sentado, não anda, é descrito como muito pálido e dado a dores e "ataques histéricos".

E a princípio, é interessante que O Jardim Secreto destaque que grande parte da "incapacidade" de Colin venha do fato de que ninguém espera ou o deixe tentar sequer descobrir se possui limitações ou não. Quando conhece Mary, ela o desafia a sair do lugar de pobre coitado em que ele foi colocado e achei que, assim, o livro traria uma mensagem importante sobre respeito as diferenças e não infantilização de pessoas com deficiência.

Contudo, eu estava enganada, já que a trajetória do Colin era justamente sobre curar-se de sua suposta deficiência. Ele poderia ser considerado hoje um caso de Síndrome de Münchausen Por Procuração (SMPP), ou seja, um quadro psicológico nos pais/responsáveis de uma criança que os leva a inventar e provocar doenças nos filhos.


Mas, O Jardim Secreto falha em responsabilizar os adultos por adoecer Colin com medicações excessivas e tratamento inadequado, o que é compreensível, já que na época da autora, não se fazia ideia do que Síndrome de Münchausen Por Procuração é. 

O problema reside justamente aí, O Jardim Secreto retrata como se fosse responsabilidade de Colin, uma criança apenas, de curar-se, mostrando sua "jornada de superação" como um milagre. A cena em que Colin finalmente fica de pé é central para o desfecho positivo do livro e me causou muito mal-estar. A obra perpetua a errônea ideia de que o objetivo final do desenvolvimento infantil é ser "normal", como se não houvesse possibilidade de Colin ser uma criança feliz e saudável mesmo que estivesse em uma cadeira de rodas.

Apesar das problemáticas citadas, há uma questão em O Jardim Secreto que envelheceu bem e é em relação a saúde mental. Tanto Mary quanto Colin possuem o mesmo problema: falta de atenção, afeto e laços sociais. O livro mostra bem como um ambiente tedioso, solitário e pobre de carinho torna as crianças frágeis, amargas e deprimidas, como acontece com os adultos.

O Jardim Secreto mostra a importância de se perceber a depressão e a ansiedade como problemas que podem afetar também os pequenos. E, ao longo do livro, vemos como fazer amizades e brincar com outras crianças, serem notados e cuidados por adultos, assim como ter um objetivo/hobby como o jardim decreto, tornou as crianças muito mais felizes e saudáveis que antes.

OS PERSONAGENS

O Jardim Secreto possui sua cota de personagens, sendo Mary e Colin os mais bem desenvolvidos e, mesmo assim, acabando muito caricatos. Sendo o livro justamente a jornada de "superação" dos dois, ambos começam insuportáveis, como crianças mimadas e irritantes, e no fim se tornam jovenzinhos doces e cheios de vida.

Infelizmente, o livro se utiliza de personagens bastantes clichês, como a empregada falante, o jardineiro mal-humorado, o rico e triste senhor de terras, a bela mulher com final trágico, a pobre, mas generosa mãe de uma grande família e por aí vai...

Já que O Jardim Secreto é mais destinado para o público infanto-juvenil e os personagens meras alegorias para o poder da amizade em mudar as nossas vidas, é compreensível que as figuras do livro sejam tão limitadas. Contudo, seria interessante vê-los ganhar camadas mais profundas e, logo, realistas e humanas.

A EDIÇÃO

A editora Autêntica caprichou demais na edição de O Jardim Secreto. A tradução de Luis Reyes Gil é excelente e não encontrei qualquer erro no texto. A fonte é de um bom tamanho e tipo, e as páginas cor de creme são de material resistente. O livro ainda é cheio de detalhes fofos como flores no início do capítulos, além de capa, contracapa e orelhas muito bem ornamentadas com imagens lindas e que trazem muitos elementos importantes da história.


VALE A PENA LER O JARDIM SECRETO?

O Jardim Secreto não é um livro perfeito. O racismo presente na narrativa, assim como a visão indigesta da deficiência como algo a ser superado/consertado causa mal estar para o leitor contemporâneo. Os personagens clichês também deixam a desejar e o começo do livro é bem arrastado.

Contudo, O Jardim Secreto também pode ser lido como um manifesto sobre a importância do amor, amizade e objetivos na vida de uma criança. A obra defende sobre como devemos nos atentar também a saúde mental dos mais jovens. Com seu cenário lindíssimo, a emoção dos personagens em descobrir e ver desabrochar um jardim secreto é contagiante.

A leitura começa lenta, mas vai nos cativando e se tornando emocionante. É um livro fofo, um clássico que, destacando sempre seus pontos negativos - racismo e visão problemática das pessoas com deficiências -, vale a pena ser lido.

QUOTES FAVORITOS

"O jardim secreto florescia e florescia, e toda manhã revelava novos milagres." pág. 207

"A menina se esgueirou pela porta, fechando-a assim que entrou. Então, com as costas grudadas na porta, ficou olhando ao seu redor e respirando rápido de excitação, encantamento e satisfação. Estava dentro do jardim secreto. Era o lugar mais encantador e mais misterioso que alguém poderia imaginar." pág. 64/65⠀⠀

"— E o que aconteceu com as rosas? Mary perguntou novamente, mais interessada ainda.
— Ficaram onde estavam.
Mary ia se sentindo cada vez mais entusiasmada.
— Será que chegaram a morrer? Será que todas as rosas morrem quando são deixadas a sua própria? — ela arriscou perguntar.
— (...) Elas viraram roseiras silvestres, mas estavam em um solo rico, portanto, algumas devem ter sobrevivido." pág. 77/78⠀

Título: O Jardim Secreto
Autora: Frances Hodgson Burnett
Editora: Autêntica
ISBN: 9786586040388
Ano: 2020
Páginas: 240
*O exemplar lido foi uma cortesia da Editora Autêntica
Compre: Amazon
Encontre o livro: Skoob - Goodreads

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1 comentários:

  1. Você comentou sobre o racismo (achei interessante), quero deixar uma observação aqui sobre a série "Todo mundo odeia o Chris", fico apavorada de saber quantas pessoas assistem a série sem perceber quão racista essa série é.

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