12.10.20

Resenha: Recursos Desumanos - Pierre Lemaitre


A HISTÓRIA

Aos 57 anos, o francês Alain Delambre esperava mais de sua vida. Por anos ele foi um importante diretor executivo de Recursos Humanos, mas agora precisa se contentar com bicos e o salário da esposa para se sustentar.

Há 6 anos desempregado, Alain achava que já tinha perdido todo o seu orgulho, mas quando leva literalmente um pé na bunda do chefe, percebe que pode cair ainda mais. Então, quando ele passa em uma seleção para um cargo executivo, Alain sabe que faria qualquer coisa para conseguir o emprego. Qualquer coisa mesmo.

Por ele nem questiona quando lhe informam que a parte final da seleção é conduzir um falso sequestro que avaliará a lealdade dos executivos de uma das maiores empresas da Europa. Querendo passar a frente dos outros candidatos, Alain gasta tudo o que tem e arrisca até mesmo o respeito de sua família para se preparar. 

Sua mulher e filhas acham que ele enlouqueceu, perdeu toda a sua moral, mas Alain fará qualquer sacrifício. Ele estuda sobre tomada de reféns, armas e a vida dos executivos que serão as falsas vítimas. Mas, quando é chegado a hora do show, novas cartas são colocadas na mesa e Alain percebe que a disputa não é tão justa quanto ele esperava. Então ele decide jogar tão sujo quanto seus possíveis empregadores.

A NARRATIVA

Recursos Desumanos é um suspense psicológico contado em primeira pessoa e dividido em três partes: Antes, Durante e Depois do maior acontecimento da trama, uma falsa tomada de reféns. A primeira e terceira parte da história são narradas por Alain, mas, a segunda (Durante) é contada pelo ponto de vista de Fontana, o ex-militar que conduz o falso sequestro.

Essa troca de perspectiva ajuda a deixar a leitura mais interessante, já que nos dá uma visão mais ampla da história e dos personagens. Contudo, ambas as narrativas são muito parecidas e, se os próprios personagens não revelassem suas identidades, a mudança nem seria percebida.

Talvez intencionalmente, a escrita de Recursos Desumanos causa certo desconforto. Primeiramente, ambos os protagonistas abertamente expressam suas opiniões machistas, homofóbicas e xenofóbicas, sem nunca sofrer consequências por isso. Em segundo lugar, a forma como as mulheres são retratadas na narrativa, sempre diante um olhar sexualizado que reduz suas personalidades e papel na trama a servir os dois narradores, homens, é bastante irritante.

A escrita de Recursos Desumanos é desafiadora não só pelos pontos citados acima, mas também por seu caráter altamente descritivo, que desacelera bastante a trama. A sensação que temos é que tudo está acontecendo em câmera lenta, o que por um lado cria e mantém o bom suspense da obra, mas por outro deixa a leitura lenta e cansativa. A narrativa ainda é recheada de cinismo, ironia e reflexões sobre o mundo corporativo, o que a torna rica e tira o leitor da sua zona de conforto, mas mais agradável apenas a leitores que gostam deste tipo de livro.


A TRAMA

Tendo lido outra obra do autor, o eletrizante suspense Bodas de Sangue, eu esperava que Recursos Desumanos seguisse a mesma linha de narrativa rápida e eletrizante, que nos choca com trilhas de corpos e fugas desesperadas. Contudo, as reviravoltas e suspense de Recursos Desumanos é mais sutil, em vez de uma caça mortal de gato e rato, como em Bodas de Sangue, temos aqui um longo e exaustivo, mas brilhante jogo de xadrez.


Com uma história tão baseada na disputa mental entre personagens, a trama é menos emocionante, mesmo que seja movimentada. A primeira parte, antes da tomada de reféns, é a mais arrastada de todas, já que o grande conflito do livro ainda é teórico, algo que sequer aconteceu ainda. Ver Alain se degradar por uma possibilidade de emprego é angustiante, mas faz sentido mais tarde, quando o vemos ir muito mais longe por sua ambição.

A segunda e terceira partes, durante e depois da tomada de reféns, são mais interessantes, com tensão mais palpável e conflito físico e verbal entre personagens. A partir daí a leitura se torna mais rápida e as surpresas mais chocantes, mesmo que sejam do tipo inteligentes, que se o leitor não estiver prestando bastante atenção, não perceberá o significado por trás delas.

AS REFLEXÕES DO LIVRO

A princípio, Recursos Desumanos nos parece uma crítica bem simples ao desespero que o desemprego pode levar uma pessoa. Até onde iríamos por um trabalho?, é a pergunta inicial do livro, mas que acaba trazendo reflexões mais aprofundadas. 

Algo que a obra me fez perceber é o quanto, na nossa sociedade ocidental moderna, associamos nosso autovalor ao trabalho, somos a nossa ocupação profissional. Além de sustento, tirámos nossa autoestima e moldamos nossos relacionamentos sociais a partir do nosso emprego. Então, quando o vínculo empregatício é quebrado, as perdas são muito mais amplas do que apenas o aspecto financeiro.

Contudo, essa é a ideia secundária de Recursos Desumanos para mim. Na minha compreensão, o livro é mais uma crítica ao meios e fins sombrios das grandes empresas, assim como o perigo do orgulho ferido de um homem privilegiado. Pois, afinal, Alain quer recuperar é seu prestígio social. Mais do que dinheiro, ele quer ter o orgulho de se dizer um diretor, um executivo, e para isso fará de tudo e machucará qualquer um em seu caminho para tornar sua ambição realidade.

OS PERSONAGENS

Por termos apenas a visão de Alain e Fontana, os personagens restantes soam limitados, sem personalidade além do que é necessário para seu papel na trama. O que, para mim, até que faz sentido, já que o livro critica justamente como, no mundo de homens ambiciosos e orgulhosos, eles são os únicos que importam.

E, de fato, mesmo Fontana sendo um dos narradores, ele também não é tão desenvolvido quanto Alain. Eles são bem parecidos em sua frieza diante um trabalho, mas enquanto Alain nos soa um narcisista sem moral, Fontana ainda causa certa dúvida se é mesmo um vilão, como Alain o vê, ou se é apenas de fato uma pessoa fazendo o que deve para sobreviver. Fiquei muito curiosa sobre Fontana e gostaria que tivéssemos visto mais de sua história e pensamentos.

Sem sombra de dúvida Alain, como ele mesmo acredita, é a estrela do show. O principal protagonista de Recursos Desumanos é arrogante, manipulador, desmedidamente ambicioso e cínico. Mas ele também é um pai preocupado e um marido fiel, e vê-lo batalhar internamente entre seus sentimentos e dor que causa a sua família, e seus desejos pessoais é bem interessante, tornando o protagonista mais complexo e humano. Ainda que longe de ser um herói...

A EDIÇÃO

Recursos Desumanos já havia sido lançado em 2015 pela Vestígio, outro selo do Grupo Autêntica. Contudo, com o lançamento de uma série baseada no livro pela Netflix, a obra ganhou nova edição e capa por outra linha editorial do grupo, a Gutenberg

Eu gosto bastante da capa atual, o contrastante entre a iluminada Paris no fundo e o sombrio homem de terno na frente, em uma pose de espera, é perfeita para a trama. Recursos Desumanos ainda apresentou uma excelente tradução de Zéfere, que inteligentemente manteve um termo ou outro em francês, o que aumenta a imersão do leitor na história. A diagramação é simples, mas boa, com um tipo e tamanho de fonte adequados.

VALE A PENA LER?

Com uma história de velocidade inicial lenta e surpresas engenhosas, que demandam que o leitor esteja realmente envolvido com a trama, Recursos Desumanos não é uma leitura para qualquer um. Contudo, fãs de suspenses psicológicos inteligentes e críticos vão adorar essa trama inusitada sobre o sombrio mundo de grandes empresas e o perigoso poder de um homem privilegiado e narcisista que quer recuperar seu orgulho e prestígio.

Para mim, que não estou tão acostumada com o gênero, esta foi uma leitura cansativa, mas interessante, que me tirou da minha zona de conforto, me manteve presa a história e me fez refletir sobre uma variedade de temas. Mesmo que não perfeita, as protagonistas femininas sexualizadas e limitadas me incomodaram bastante, achei que Recursos Desumanos valeu a pena.


Título: Recursos Desumanos
Título original: Cadres noirs
Autor: Pierre Lemaitre
Tradutor: Zéfere
Editora: Gutenberg
ISBN: 9786586553215
Ano: 2020
Páginas: 352
*O exemplar lido foi uma cortesia da editora

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