18.11.19

[Crítica] Dickinson: série de época da Apple reimagina vida da poeta


A poeta americana Emily Elizabeth Dickinson (1830-1886) viveu uma vida curta e em grande parte isolada. Em vida, os poucos poemas que chegou a publicar passaram quase que despercebidos. Após a sua morte, vieram a tona sua massiva obra de quase 1.800 poemas que revolucionaram a poesia americana e mundial. Muitas vezes sem título, com frases curtas e repetição de temáticas como morte e imortalidade, seus poemas encantam com rimas elegantes e mensagens enigmáticas. 

Emily era moderna demais para o tempo em que viveu. E essa é a premissa básica da série Dickinson da Apple TV+, que mistura comédia, romance e drama absurdo e mais adapta do que retrata a vida da artista. O show se baseia nos poucos fatos conhecidos sobre a vida de Emily, o fato que nunca se casou, que trocou poemas de amor com sua cunhada e viveu dias de reclusão, por exemplo, para reimaginar como ela teria sido se tivesse o espírito de uma jovem dos tempos atuais.

Leia também:


Na trama do show, Emily Dickinson (Hailee Steinfeld) é uma jovem que luta contra as ideias da mãe (Jane Krakowski) de que deveria dedicar todo seu tempo para o lar. Mais do lavar a louça, Emily faz de tudo para a sua verdadeira paixão: a escrita. Dona de uma imaginação perigosamente fértil, Emily se encontra com a Morte (Wiz Khalifa) e animais falantes com tanta frequência que se diverte com Sue (Ella Hunt), sua melhor amiga.

Sue e Emily são muito mais que amigas, elas nutrem uma paixão secreta, arrebatadora e, claro, proibida. Mas, a última sobrevivente de sua pobre família, Sue precisa aceitar se casar com Austin (Adrian Enscoe), irmão de Emily, para sobreviver. A disputa pela atenção de Sue coloca uma tensão constante entre os irmãos, a qual Emily quase sempre perde por ser uma mulher. Sua irmã, Lavínia (Anna Baryshnikov), uma mocinha perfeita cuja vida gira em torno do gato e da busca por um marido, também não possui muita voz na mesa da família. 

Contudo, mesmo Austin não desejando de forma alguma cumprir esse papel tradicional do herdeiro masculino, ele não encontra outra possibilidade de ser quem é, um rapaz sensível que só quer se divertir. O pai e líder da família, Edward (Toby Huss), é uma figura importante na cidade e não deixará nenhum dos ousados filhos estragarem com suas ideias modernas a imagem perfeita que o sobrenome Dickinson carrega. Contudo, seu coração tem um cantinho amolecido por Emily, sua filha favorita e brilhante que ele fará de tudo para proteger… e manter para sempre ao seu lado.

Palavrões ditos sem qualquer pudor, festas não supervisionadas regadas a drogas e troca de imagens íntimas são alguns dos aspectos que, em um primeiro momento, causam estranheza ao espectador. Não era para Dickinson ser uma série de época? E ela é, mas na tradição de obras como Orgulho, Preconceito e Zumbis ou os diversos steampunks que fizeram sucesso nos cinemas. O show Dickinson cria um universo paralelo em que parece perfeitamente aceitável que Emily Dickinson desejasse ser a melhor poeta que já existiu e soubesse que isso aconteceria, já que conversa regular e intimamente com a Morte.


Particularmente, eu amei essa abordagem moderna para a vida de uma mulher que foi tão moderna em sua arte. Emily estava anos luz à frente de seu tempo e como não sabemos muitos detalhes sobre sua rotina, é possível que ela realmente tenha sido tão controversa e desafiadora como mostrado em Dickinson.

Colocar o espírito de uma jovem dos nossos tempos na autora da época da Guerra Civil Americana ainda a torna palatável e identificável para o público atual, especialmente os jovens. Assim, Dickinson é uma bela introdução a vida e obra de Emily e é tão cativante que nos desperta a vontade de ler os poemas da artista. E se uma série de TV conseguir fazer jovens se interessarem mais por poesia, ela merece um prêmio só por isso.

Outro fator interessante de Dickinson é criticismo da trama sobre os personagens que retrata. É muito bom que a série mostre que, como uma mulher branca de classe alta, Emily tinha a opção de não se casar ou de não fazer os trabalhos de casa para escrever poesia. O show ainda ganhou pontos por mostrar o amadurecimento de Emily. Ela começa a série bastante infantil e egoísta, mas logo dos episódios vai aprendendo que ter um talento incomparável não a torna isenta de se responsabilizar pelos seus atos.

De fato, todos os personagens jovens nos soam irritantes no começo, tomando ações mesquinhas e impensadas. Mas são todos também são apaixonados pela vida, crianças que precisam crescer rápido demais em um mundo cheio de regras e papéis sociais com os quais eles não se identificam. Esse é um aspecto positivo da trama, pois mostra que jovens sempre foram jovens, que sempre gostaram de se divertir e questionar o mundo, e que não há nada de errado nisso.


Os personagens mais velhos de Dickinson são igualmente complexos. Edward é, ao mesmo tempo, opressor e controlador, mas também gentil e sensível. Ele se compadece com o talento da filha e faz suas vontades para vê-la feliz. O que tem um preço, claro, já que, para Edward, Emily é livre para escrever, mas não para publicar; ela pode ter uma vida confortável em casa, mas só se seguir as regras dele e nunca desafiá-lo (o que ela faz o tempo todos, claro).

Já a mãe de Emily, de quem ela herdou o nome, luta contra a inveja pela filha ser a favorita do marido, mas também quer que Emily tenha um boa vida, só que através do casamento. Emily-mãe é uma representação perfeita de que como papéis sociais podem ser impostos tão fortemente sobre uma pessoa que ela passa a realmente acreditar que, como no caso da personagem, só é boa para ser uma esposa e cuidar da casa. Mas é divertido ver relances de rebeldia em Emily-mãe, que em sua juventude deve ter sido tão ousada quanto a filha e pode, a qualquer momento, se rebelar novamente.

A atuação das Emilys, mãe (Jane Krakowski) e filha (Hailee Steinfeld), basicamente carrega sozinha a responsabilidade pelo sucesso da série. A personagem de Krakowski é envolta em uma ironia crítica tão sutil que, se não fosse o trabalho caricato, mas hilário da atriz, grande parte dos momentos de alívio cômico da trama seriam perdidos. Steinfeld tem a oportunidade de trabalhar com mais emoções, já que Emily enfrenta desafios bastante complexos. A protagonista é divertida, mas também vive tristezas, perdas, paixões e aventuras igualmente arrebatadoras. Steinfeld consegue nos fazer rir com sua ousadia e ideias absurdas, mas também nos emociona quando luta contra o pai opressor e a impossibilidade de ficar com Sue.

Em resumo, Dickinson é uma série de comédia surpreendente e inusitada. Eu amei o show e estou contando os dias para a segunda temporada (que já foi confirmada) ser lançada. Agora quero ouvir de vocês! Já viram ou ficaram com vontade de assistir Dickinson?

Comente com o Facebook:

0 comentários:

Postar um comentário

Sinta-se a vontade para expressar a sua opinião, para divulgar o seu site/blog ou para elogiar ou criticar o blog! Lembrando que comentários com conteúdos agressivos, ofensivos ou inadequados serão excluídos.

(Você também pode entrar em contato comigo por e-mail, formulário ou pelas redes sociais. Saiba mais na página "Contato".)