13.4.19

[Crítica] Tudo sobre Deadly Class: adolescência punk e ciclos de violência


Eu amo acompanhar as séries da moda sobre a qual todos estão falando da mesma maneira que amo "descobrir" joias raras que passaram despercebidas. E Deadly Class pode não ser exatamente desconhecida, afinal, foi adaptada de uma amada série de quadrinhos, mas ainda não explodiu como outros shows similares, como Riverdale e As Arrepiantes Aventuras de Sabrina, que também apostam em dramas adolescentes que se passam em colegiais muito mais sombrios que os da vida real.

Apesar de não ser perfeita, Deadly Class se destaca com algo que falta a outros shows do gênero: crítica social afiada. Deadly Class é uma história sobre amadurecimento, que aborda como é ser e se sentir diferente em mundo cujas regras muitas vezes não fazem sentido. Sem mais delongas, conheçam tudo sobre a minha nova série favorita:

Leia também: [Crítica] Tudo sobre The Umbrella Academy e super-heróis humanos

OS QUADRINHOS E A HISTÓRIA

Uma mistura de horror e ação, Deadly Class chegou ao mercado em Janeiro de 2014 através da Image Comics (publicada no Brasil pela Devir Livraria). Escrita por Rick Remender, ilustrada por Wesley Craig e colorida por Lee Loughridge, a trama violenta e os personagens cheios de traumas logo conquistaram fama para a saga. Atualmente com 8 volumes (40 revistas), a obra foi adaptada para a televisão com produção de ninguém menos que Anthony e Joseph Russo, irmãos responsáveis por filmes como Capitão América: Guerra Civil e Avengers: Guerra Infinita, e até mesmo a série de comédia Arrested Development.

Capa das primeiras revistas. Você pode comprá-las aqui.

Deadly Class tem como protagonista Marcus Lopez Arguello (Benjamin Wadsworth), um jovem órfão que mora nas perigosas ruas da cidade de São Francisco no final dos anos 80. Acusado de ter queimado e assassinado pessoas no último orfanato em que viveu,  ele está constantemente fugindo da polícia enquanto luta também contra a fome e o frio. Paranoico e desesperançoso, Marcus está quase decidido a acabar com a própria vida quando é recrutado para estudar na King's Dominion Atelier of the Deadly Arts, uma academia para assassinos administrada pelo rígido Master Lin (Benedict Wong).

Filhos da máfia japonesa e de gangues americanas, futuros agentes do FBI, herdeiros de cartéis de droga, neonazistas, filhos de assassinos russos e muitas outras figuras violentas e excêntricas percorrem os corredores da Academia. Eles são os chamados Legados, filhos de pessoas que também passaram por lá. Já Marcus descobre que pertence aos Ratos, jovens como ele, com reputação terrível e sem nenhum outro lugar para onde ir. Marcus faz amizade rapidamente com os punks Billy  (Liam James) e Lex (Jack Gillett) e a gótica Petra (Taylor Hickson), outros Ratos socialmente excluídos.

Quando a turma de Marcus recebe como tarefa matar alguém que merece, Willie (Luke Tennie) se aproxima do novo aluno e o força a ser seu colega para o difícil trabalho. Logo o segredo do popular Willie é relevado: ele foi criado em uma gangue, mas é um pacifista que não deseja matar ninguém. Então Marcus acaba fazendo o trabalho sujo para ele e começa a se perguntar se, na verdade, ele não merece a reputação terrível que tem. E é por causa dela que Maria (María Gabriela de Faría) se aproxima dele. 


Namorada do abusivo Chico (Michel Duval), líder do grupo mais poderoso da escola, Maria é uma mexicana que vê Marcus como uma novidade interessante demais para resistir - e uma possibilidade de escapar dos seus próprios e muitos problemas. Contudo, Marcus só tem olhos para a melhor amiga dela, Saya (Lana Condor), a japonesa intrigante e letal que o recrutou para a academia. Saya age como uma assassina nata, mas Marcus vê nela uma fragilidade que também enxerga no espelho.

No lugar mais estranho e inusitado de todos eles formam um grupo estranho de amigos. Apesar de constantemente suas relações serem balançadas pelas disputadas de poder entre os grupos da escola, Marcus e seus novos colegas são no fundo adolescentes como outros quaisquer. Claro que eles precisam a aprender a lutar, envenenar e matar, mas também quem são e que marca querem deixar nesse mundo. Entre discussões sobre música alternativa e quadrinhos, assim como triângulos amorosos, os protagonistas de Deadly Class também questionam seus princípios morais e enfrentam inimigos mortais.

ALÉM DE ASSASSINATOS: AS CRÍTICAS SOCIAIS DE DEADLY CLASS

Deadly Class pertence a um subgênero da ficção conhecido como "coming of age", ou seja, é história sobre amadurecimento. Assim, vemos seus personagens lutarem para descobrirem quem são em um mundo caótico e violento. E essa é, para mim, a beleza da história, seja na HQ ou na adaptação para a TV. Mais do que um modo de atrair e chocar leitores e espectadores, as lutas, envenenamentos e assassinatos da trama tem uma função bastante crítica. Primeiramente, Deadly Class mostra a brutalidade de se crescer nas margens. O protagonista e seus amigos são todos, de alguma forma, excluídos e rejeitados socialmente, todos carregam uma sensação profunda de distanciamento do seus pares e solidão. São essas duas coisas que os unem, em primeiro lugar.


Como crescer em um mundo com o qual você não se identifica, que tem valores com os quais você não concorda? Deadly Class dá a resposta: amizade. Só os amigos podem salvar uma pessoa em um dos momentos mais vulneráveis de sua vida, a adolescência, e é através de músicas, quadrinhos e disputas escolares mortais que os personagens principais da série conseguem sobreviver. Contudo, Deadly Class ganha mais pontos ainda por mostrar que até mesmo as mais sinceras das amizades enfrentam problemas. Ansiedade, o medo de ser julgado, o egoísmo, os traumas passados e outras coisas mais ficam no caminho dos amigos, que tem que descobrir, juntos, como sobreviver ao cruel mundo no qual vivemos sem se tornarem seres humanos horríveis.

Mais que uma história sobre amadurecimento, Deadly Class é também um estudo sobre ciclos de violência. Pois veja bem, não é qualquer pessoa que entra na King's Dominion. E muito menos não é qualquer pessoa que sobrevive na escola mais tóxica e mortal da ficção. Ali estão filhos de criminosos, de assassinos, que cresceram vendo toda a violência, crueldade, dor, medo e manipulação que um ser humano é capaz de provocar. Até mesmo os Ratos trazem infâncias perturbadas, eles tiveram pais e colegas de orfanato abusivos, ou foram vítimas de cultos bizarros. E obviamente isso teve um impacto nesses jovens.

Existe um preço para estudar na King's Dominion assim como existe um preço para ser exposto a tanta violência tão cedo. Abuso de drogas, transtornos de personalidade, solidão, depressão e ansiedade são algumas das consequências mais óbvias e mais básicas que os protagonistas de Deadly Class enfrentam. Mais que jovens com historinhas de infância tristes, os personagens principais da trama são genuinamente crianças traumatizadas tentando superar os horrores que viveram, seja tentando fugir da violência, como é o caso de Willie, ou aceitando que também vê prazer nela, como Marcus e Saya.

Contudo, uma pergunta que a primeira temporada de Deadly Class faz, mas não responde, é: será que dá mesmo para escapar? Ou será que os ciclos de violência são mesmo inquebráveis e os personagens estão fadados a serem tão terríveis e miseráveis quanto as pessoas que os expuseram tão cedo a esse mundo cruel? Agora é esperar para ver se a próxima temporada da série vai responder ou não essa pergunta...


HQ vs ADAPTAÇÃO: VALE A PENA REALMENTE VER A SÉRIE?

Eu fiquei tão fascinada por Deadly Class que assim que terminei os 10 episódios da primeira temporada, corri e encontrei os quadrinhos para ler. E preciso dizer: a série de TV é bem fiel a HQ. A trama, inevitavelmente, tem algumas mudanças, contudo, os acontecimentos importantes continuam basicamente os mesmos. Mas, curiosamente, o seriado consegue explorar alguns tópicos mais afundo que a HQ. Temos muito mais narração na série, o que nos permite afundar ainda mais na cabeça de Marcus e nos divertir com seu modo cínico e sarcástico de ver o mundo. E alguns diálogos e conflitos entre os personagens são melhor explorados na série.

Contudo, os protagonistas mantém suas identidades, personalidades e passado de uma mídia para a outra. Na verdade, a adaptação de Deadly Class é tão cuidadosa que até as roupas e a linguagem corporal dos atores são quase idênticas as dos quadrinhos. Minha única reclamação é que, ao investir mais no lado cínico, e às vezes cômico, de Marcus, a série às vezes suaviza a fragilidade e os traumas do personagem. Nos quadrinhos fica bem mais claro o quanto Marcus está completamente despedaçado, e o quão ansioso ele está para se encaixar entre os novos colegas, assim como sua carência não só por amizade, mas por um propósito.

Ao investir em mais cenas bem-humoradas, apesar de que o humor da série é bem ácido, o Marcus parece bem menos triste e quebrado de como ele está na HQ. Algo semelhante acontece com Saya, que é extremamente fria e misteriosa no show televisivo, mas que em um dos primeiros quadrinhos chega a afirmar que estava tendo pesadelos porque matou alguém. A série de Deadly Class acaba romantizando, em parte, o passado triste de tais personagens e a violência, enquanto os quadrinhos são mais brutalmente honestos sobre as consequências de tanta dor e morte na vida de uma pessoa. Entretanto, isso, para mim, não é um negativo da série de TV, e sim um exemplo de que, no final, quadrinhos e adaptação se completam.

A série de TV Deadly Class também pegou muita coisa emprestada do visual dos quadrinhos. Na verdade, para o meu fascínio, descobri lendo a HQ que o seriado basicamente refez com pessoas e objetos reais grande parte dos quadros e cenas apresentados nos quadrinhos. Além disso, a adaptação inteligentemente prestou certa "homenagem" aos quadrinhos ao mostrar o passado dos personagens sempre em forma de animação, em desenhos cujos traços lembram bastante os do HQ. Além do visual incrível, Deadly Class ainda tem uma trilha sonora perfeita, com muito punk, hip hop e músicas populares dos anos 80. O caráter nostálgico dessa época é visível tanto nos quadrinhos quanto na adaptação.


Como nem tudo é perfeito, alguns episódios de Deadly Class são mais lentos que outros. Por vezes a série exagera um pouco no drama adolescente, sem falar que toda a história de Maria e Saya de certa forma disputando Marcus é bem clichê e um pouco sexista. Mas, o fato das personagens femininas serem bem desenvolvidas e terem conflitos próprios e profundos que não envolvem o Marcus compensam um pouco o fato. Mas vale a pena ver Deadly Class? Mil vezes sim. A série é divertida, emocionante e crítica. O visual sombrio e artístico passa a impressão de que estamos vendo um quadrinho animado, e a trilha sonora é incrível. Acho difícil os fãs da HQ não curtirem a adaptação da mesma forma que tenho certeza que, como eu, quem ver a série vai ficar louco para ler os quadrinhos e ter muito mais dessa trama e personagens fascinantes.

O QUE ESPERAR DA SEGUNDA TEMPORADA?

Infelizmente, Deadly Class ainda não foi renovada para uma segunda temporada. Os primeiros episódios tiveram bons números de audiência nos Estados Unidos, mas mais tarde os fãs até lançaram uma campanha de divulgação no Twitter para tentar salvar a série do cancelamento. Até o momento em que esse post foi escrito, nenhuma informação sobre uma possível segunda temporada foi divulgada, mas como estou apaixonada pelo show, já estou fazendo minhas apostas do que está por vir.

ATENÇÃO! O TRECHO ABAIXO CONTÉM SPOILERS DA 1ª TEMPORADA DA SÉRIE

O final do 10º episódio foi de tirar o fôlego e deixou muitas, muitas perguntas. Após toda a temporada acompanhando o desenvolvimento do relacionamento entre Marcus e seus amigos, tudo foi ladeira abaixo no último episódio, que acabou com grupo não só fisicamente separado como  psicologicamente dividido. A maior pergunta, na minha opinião, é se Willie vai conseguir escapar, como ele tanto desejava. O personagem fez uma escolha e resolveu fugir da vida de violência e crime, mas será que vai conseguir?

Os outros personagens, contudo, prometem arcos igualmente interessantes. Será que Lex vai sobreviver ao ferimento de bala que sofreu nos últimos minutinhos do 10º episódio? Já Saya, em sua última aparição, declarou estar cansada do grupo, já que os amigos sempre a arrastam "para baixo", o que não deixa de ser uma verdade, já que cabe sempre a ela salvar todo mundo. Mas, como Saya quebrou sua promessa ao Master Lin e é odiada pela própria família, será que vai conseguir viver por conta própria?


O destino de Maria e Marcus parece igualmente incerto. Algo positivo do final da temporada foi ver esse casal (provavelmente) dando seus últimos suspiros, com Maria percebendo que Marcus não corresponde o afeto dela e que ela precisa parar de se envolver com caras tóxicos para fugir de seus problemas (não me entendam mal, Marcus é um fofo, mas um namorado terrível). Já Marcus vai precisar lidar com os novos sentimentos de Maria e, claro, seus velhos sentimentos por Saya.

Mais do que isso, Marcus provavelmente deve tentar reunir o grupo de novo, tarefa nem um pouco fácil e provavelmente sangrenta. Um grande empecilho, porém, deve ser o que abrirá a segunda temporada: o fato do Cartel saber que Maria e Marcus são culpados pela morte de Chico. Será que eles sequer vão sobreviver? E que terão um lugar para o qual voltar? A própria King’s Dominion pode estar em risco de ser extinta ou de mudar de diretor agora que o grande segredo de Master Lin foi revelado e ele deixou claro que suas opiniões vão contra a Guilda de Assassinos que fundou a escola.

Tantas perguntas sem resposta, mas por enquanto só nos resta especular. Sombria e violenta, a obra também é muito divertida e intrigante, com um cenário fascinante e personagens com os quais nos identificamos muito. Deadly Class conquistou uma base sólida de fãs na sua primeira temporada e é algo bem único em comparação a outras séries coming of age lançadas nos últimos tempos. Agora só nos resta torcer para que a segunda temporada chegue logo.

Comente com o Facebook:

2 comentários:

  1. Adorei a sua crítica! Nunca tinha ouvido falar na série e muito menos na HQ e fiquei doida para assistir. Adoro este tipo de histórias que abordam temas relacionados com o amadurecimento e crescimento interno dos personagens em ambientes violentos e hostis e gosto do trabalho de Lana Condor. Não percebo como é que nunca tinha ouvido falar de Deadly Class...
    Obrigada pela oportunidade de conhecer esta série :)
    Mundo da Fantasia

    ResponderExcluir
  2. Gosto assim fiel ao livro, vou correr pra assistir ♥
    Beijinhos ;*

    Blog Menina Caprichosa | Canal Youtube | Facebook | Insta

    ResponderExcluir

Sinta-se a vontade para expressar a sua opinião, para divulgar o seu site/blog ou para elogiar ou criticar o blog! Lembrando que comentários com conteúdos agressivos, ofensivos ou inadequados serão excluídos.

(Você também pode entrar em contato comigo por e-mail, formulário ou pelas redes sociais. Saiba mais na página "Contato".)