2.10.18

Resenha: O Tempo Desconjuntado - Philip K. Dick


A HISTÓRIA

Ragle Gumm vive uma vida tranquila ao lado da irmã, cunhado e sobrinho em uma pequena cidade norte-americana em 1959. Ele serviu na Segunda Guerra, mas agora se sustenta participando de um concurso de jornal. Todos os dias Ragle tenta descobrir onde o homenzinho verde vai aparecer e todos os dias ele acerta, o que o tornou uma celebridade local. Alguns dizem que ele tem apenas sorte, mas Ragle se utiliza de um rigoroso e complicado método de análises de gráficos e tabelas para descobrir sua resposta.

E o concurso do jornal exige tanto dele que Ragle passa os dias em casa, trabalhando em sua resposta. Pouco falante, suas interações sociais se limitam a sua família, a um casal de vizinho e a um corresponde do jornal que o visita de tempos em tempos. E Ragle achava que estava feliz vivendo essa vida pacata, até começar a perceber que tem algo muito estranho acontecendo. Quando objetos começam a desaparecer e se transformar em papel com palavras escritas, como “barraca de refrigerante”, o homem passa a suspeitar que há uma conspiração ao seu redor.

Ragle ainda encontra uma revista estampando uma atriz famosa, Marilyn Monroe, que ele nunca ouviu falar e uma lista telefônica com números desconectados, o fazendo ter certeza de que há pessoas o observando e controlando todos os seus movimentos. Ragle imagina que está ficando maluco, mas quando sua irmã e cunhado começam a notar coisas estranhas também, ele se convence de que precisa fugir de tudo isso. Ragle planeja deixar a cidade e descobrir o que diabos está acontecendo. Contudo, seus recém-descobertos inimigos não facilitarão sua jornada e Ragle vai descobrir que nem sempre saber a verdade traz paz. 


O AUTOR, A LEITURA E CRÍTICAS DO LIVRO

Há algum tempo ouço falar bem de Philip K. Dick, falecido autor de sucessos da ficção científica como Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas? (que inspirou o filme Blade Runner), O Homem do Castelo Alto (que virou a série The Man in the High Castle) e o conto Minority Report (que deu origem ao filme de mesmo nome). Agregando temáticas políticas, filosóficas e sociais a suas histórias, o autor falou sobre teologia, autoritarismo, identidade, guerra, realidades alternativas e consciência, muitas vezes questionando o que julgamos ser real e a ordem social das coisas. Dick viveu 53 anos de experiências conturbadas, inclusive 5 casamentos e um período em que ele acreditou ser clarividente, e só começou a ser verdadeiramente reconhecido por seu trabalho após sua morte prematura.

Quando recebi O Tempo Desconjuntado como cortesia da editora, fiquei imediatamente curiosa para ler a obra não só por pertencer a Dick, mas também por causa de sua sinopse intrigante. Contudo, logo de início vieram algumas decepções. A narrativa de Philip K. Dick, em terceira pessoa, é bastante envolvente. Simples e objetiva, a escrita do autor apresenta bem os personagens e trama, dando toques bem-vindos de ironia, mistério e tensão a leitura. Contudo, O Tempo Desconjuntado narra algumas condutas e reproduz ideias extremamente machistas que provocaram muito incômodo durante a leitura. O livro foi publicado, pela primeira vez, em 1959, o que me faz compreender o caráter sexista de algumas cenas, como um momento em que os personagens discutem sobre os seios de Marilyn Monroe. 

Mas entender é diferente de aceitar e não posso deixar passar despercebido, por exemplo, quando o protagonista beija uma mulher a força e a história aborda o fato com se fosse algo natural e aceitável. O Tempo Desconjuntado também peca com protagonistas femininas com pouca importância e bastante caricatas, ou seja, infantilizadas, submissas e pouco inteligentes. Em uma foto que postei do livro no meu Instagram, uma pessoa comentou que muito disso vem, claro, da época em que o livro foi escrito, mas também de uma ironia crítica do autor, o que parcialmente discordo. É possível sim que Dick estava buscando causar indignação com mocinhas tão sem sal que são tratadas de forma sexista? É sim. Contudo, se sua intenção era essa, ele falhou miseravelmente ao ser sutil demais. Em nenhum momento do livro sinto que o autor confronta ou condena verdadeiramente a visão da mulher e atitudes sexistas retratadas, mesmo que, por um breve momento, ele insinua a existência de uma visão de gênero menos conservadora.

A trama de O Tempo Desconjuntado, entretanto, se coloca a criticar vários outros temas. Em especial, o que exatamente é realidade, a maleabilidade da consciência e da autoconsciência, a alienação imposta por um governo autoritário, e a paranoia e o medo infundado de inovações tecnológicas e mudanças culturais. Todas essas reflexões só são percebidas, contudo, só no final do livro. E, por mais que o desfecho tenha sido bastante revigorante e surpreendente, novamente me decepciono com o autor por ser tão sutil, quem sabe até mesmo raso, em suas críticas.

O final de O Tempo Desconjuntado não estava nem um pouco perto do que eu esperava e foi mais do que satisfatório. Contudo, a jornada até ele não é tão agradável e só saber a que o livro se propõe nas últimas páginas é irritante. O Tempo Desconjuntado é um pouco arrastado na metade, e mesmo não sendo muito longo (o livro tem 272 páginas), a leitura foi mais lenta do que eu esperava e gostaria. Talvez, se Dick tivesse ido as suas reflexões críticas de forma mais escancarada, o livro poderia ter sido mais impactante e emocionante.


OS PERSONAGENS E O QUE REPRESENTAM

Como já disse, O Tempo Desconjuntado deixa a desejar quanto as personagens femininas. A obra tem um núcleo bem pequeno de personagens e as poucas mulheres que encontramos são estereotipadas e sem qualquer personalidade. O que não seria um problema, se levarmos em conta que os outros secundários também são retratinhos bem fechados de alguns clichês. O cunhado e o vizinho de Ragle, por exemplo, apenas representam, respectivamente, o homem norte-americano simples, satisfeito com tudo e que nada questiona, e o cara de negócios, o trabalhador do governo de alto nível que faz tudo o que precisa ser feito, novamente, sem questionar

Contudo, as mulheres de O Tempo Desconjuntado são retratos pejorativos da esposa submissa e inocente, e da vizinha gostosa e infantilizada, que me desagradaram profundamente. Por mais que os protagonistas masculinos estereotipados estivessem ali como uma crítica as figuras da sociedade norte-americana pós-guerra; as mulheres, em muitas das vezes, soam mais como o alívio cômico, já que elas são tão burras e irrelevantes que não percebem o que está acontecendo e que precisam o tempo todo que os homens expliquem as coisas para ela. Com mulheres assim na trama, se tornou impossível com que eu me identificasse com algum personagem da história, ainda mais considerando que o restante deles são todos homens brancos de meia idade.

E falando do homem branco de meia idade que é o destaque de O Tempo Desconjuntado, Ragle Gumm não é nem um pouco cativante. Novamente, temos mais um retrato crítico: ele é o homem sem família e sem emprego, um herói de guerra que nunca pegou em uma arma de verdade e que, repentinamente, descobre que o mundo verdadeiramente gira ao seu redor. Nesse ponto, tenho que dar crédito a sagacidade de Dick, que resumiu, e criticou com uma ironia inteligente, a cultura sexista e patriarcal que coloca o homem branco, norte-americano, de classe média-alta, no centro do universo. Essa é, talvez, a reflexão mais explícita que O Tempo Desconjuntado traz, já que Ragle embarca em uma jornada completamente paranoica (e que nos soa realmente insana) em busca de pistas que provam que ele é o homem mais importante do mundo. 

Mas, nem tudo são flores e esse livro não é perfeito. Senti que faltou a O Tempo Desconjuntado um momento de confronto, que expusesse a mediocridade de Ragle. Afinal, o personagem é por demais rude e egocêntrico, não é engraçado, bonito ou charmoso de algum modo. Entretanto, o desfecho do livro perde essa oportunidade, de certa forma confirmando que o mundo realmente dependia só de Ragle, que continuou apenas pensando em si mesmo, em vez de pelo menos usar o que descobriu para se tornar uma pessoa melhor. Ou seja, o final de O Tempo Desconjuntado é, ao mesmo, excitante e decepcionante. Por um lado, entendemos, nas últimas páginas, sobre o que a história realmente se trata. Mas, por outro, ela falha em ir além da crítica e não confrontar os ideais e temas que tanto ironiza.


A EDIÇÃO

O Tempo Desconjuntado tem uma edição caprichada, de capa dura. A diagramação é perfeita e tem um bom estilo e tamanho de fonte, além de páginas amareladas e de um material resistente. A capa de cores chamativas, e que conversam bem entre si, chamam a atenção e combinam com os tantos contrastes que a obra apresenta. A ilustração, além de bonita, também se encaixa bem com a trama. 

CONCLUSÕES FINAIS

O Tempo Desconjuntado está longe de ser perfeito e, espero, o melhor livro do renomado autor de ficção científica. Na verdade, é quase compreensível a sensação de que “falta alguma coisa” que o livro me passou se considerarmos que a obra foi publicada alguns anos antes das demais histórias que tornariam o nome de Philip K. Dick conhecido. O livro não é ruim, na verdade, gera muitas discussões e reflexões interessantes. Ao retratar a história de um homem que começa a perceber inconsistências na sua realidade que indicam, de certa forma, que ele é a pessoa mais importante do mundo, Dick ironiza vários aspectos da sociedade norte-americana pós-segunda guerra mundial. 

O que é realidade, como a consciência se forma, quem controla nossas ideias e visão de mundo, quem observa nossos passos, porque tememos o desconhecido e o novo, são alguns dos questionamentos que o livro traz. Contudo, as muitas críticas de O Tempo Desconjuntado só fazem sentido nas últimas páginas e decepcionam ao se encerrar por aí, sem confrontar tais ideias ou propor novas. No fim, a leitura é intrigante, com boas pitadas de humor, mistério e paranoia, mas lenta e frustrante em alguns pontos. Recomendo que cada leitor tire suas próprias conclusões, claro, mas continuo curiosa para ler mais livros de Philip K. Dick.


Título: O Tempo Desconjuntado
Título original: Time Out of Joint
Autor: Philip K. Dick
Editora: Suma
ISBN: 9788556510662
Ano: 2018
Páginas: 272
*Esse exemplar foi uma cortesia da Companhia das Letras
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1 comentários:

  1. Sou louca para ler algo do autor mas ainda não tive oportunidade, fiquei encantada por essa capa toda colorida mas não sabia do que se tratava até ler sua resenha. Que pena que traz tantas cenas machistas... isso é decepcionante mesmo, mas assim como você comentou é até compreensível pensando na época em que foi publicado.

    Mesmo assim tenho interesse no livro e vou dar uma chance, com a mente mais preparada para esses "defeitos".

    beijos
    http://www.alivromaniaca.com.br/

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