15.3.18

Resenha: Jogador Nº 1 - Ernest Cline


A HISTÓRIA

Wade Watts é um jovem como muitos de seu tempo, um geek antissocial viciado em videogames, filmes e séries antigos. Abandonado pelos pais, ele mora com a terrível tia em um parque de trailers na região mais pobre da cidade. Em um mundo em crise ambiental, econômica e social, Wade se refugia na utopia digital que é OASIS. Mais que um videogame, OASIS abriga milhares de cenários virtuais, desde mundos cyberpunks até reinos medievais, alguns baseados em lugares reais, outros completamente fictícios. E a plataforma não é usada só para completar missões e lutar contra inimigos, OASIS é também uma plataforma para fazer negócios e estudar, mas, principalmente, para proporcionar lazer de todos os tipos. 

Mas, pobres como Wade tem uma experiência limitada. Viajar por OASIS custa dinheiro de verdade, então o garoto basicamente passa seu tempo no campus virtual que abriga a sua escola. Contudo, Wade não é um aluno dedicado, ele não tem muitos amigos e todo o seu tempo é voltado para A Caça. Cinco anos antes, com a morte do criador de OASIS, deu se início a uma competição insana por sua fortuna. O primeiro jogador de OASIS que encontrar um Ester Egg, através de uma série de enigmas, levará toda a herança multimilionária, assim como o total controle de OASIS. Mas, ninguém tinha conseguido desvendar o primeiro enigma até Wade.

“– Não finja ser ingênuo, Wade – Sorrento disse. – Há bilhões de dólares em jogo, juntamente com o controle de uma das empresas mais lucrativas do mundo, e do OASIS em si. Isso representa muito mais que um concurso de videogame. Sempre representou.” pág. 185

Obcecado pela Caça, ele mantém anotações extensas sobre a vida, os jogos, filmes e seriados favoritos do criador de OASIS, seu grande ídolo. Um dia, durante uma aula de Latim, o jovem tem insight e descobre onde está a primeira das três chaves que levarão ao Easter Egg e ao prêmio. Assim, Wade, conhecido no mundo online como Percival, acaba como o primeiro lugar no placar da Caça, o que instantaneamente o torna famoso e um alvo. A fortuna do criador do jogo é o sonho de muitos ambiciosos jogadores, mas uma empresa em especial deseja ganhar a corrida para ter controle de OASIS, e torná-lo um universo caro e elitista. Assim, não só pelo dinheiro, mas para garantir a liberdade e acessibilidade do videogame que lhe ensinou tudo, do único lugar em que pode ser ele mesmo, Wade fará de tudo para ganhar a Caça pelo Easter Egg. Nem que seja a última coisa que ele faça na vida.


A LEITURA: NARRATIVA E TRAMA

Eu tinha boas, mas não altas expectativas para Jogador Nº 1. O livro já estava juntando poeira há alguns anos na minha estante, e confesso que só fiquei curiosa para lê-lo por causa da chegada do filme baseado na obra. Contudo, acabei gostando bastante de alguns aspectos da leitura e feliz por ter conhecido um dos livros mais admirados da cultura nerd/geek. Particularmente, não sou muito fã de videogames, apesar de que minha única paixão desse universo (The Sims), me faz entender o grande apelo dos jogos, especialmente para os jovens. 

“[OASIS] ‘Tornou-se uma prisão autoimposta à humanidade', ele escreveu. 'Um lugar agradável para que o mundo se escondesse de seus problemas enquanto a civilização humana lentamente ruía, principalmente por negligência.’” pág. 156

E toda essa questão de, através dos games, poder se transportar para um novo mundo e ser uma pessoa diferente, a pessoa que você quiser, é bastante trabalhada em Jogador Nº 1. Uma das coisas que logo me cativou e fascinou na obra foi OASIS, uma utopia digital que soa bastante real (e próxima dos videogames de realidade virtual que já existem). Eu gostei que a proposta do OASIS não é só ser um videogame. O jogo é criado para permitir que as pessoas tenham acesso a tudo, desde lazer e aventuras virtuais, claro, mas também cultura e arte. Contudo, Jogador Nº 1 vai além do óbvio, e mostra o lado bom (como ele une pessoas fisicamente distantes, por exemplo), mas também o aspecto ruim de OASIS, como o vício que o jogo causa, assim como distanciamento da realidade, alienação e isolamento social, sedentarismo, etc.


A narrativa em primeira pessoa (pela perspectiva de Wade) de Jogador Nº 1 configurou para mim, infelizmente, um ponto negativo. As descrições extensas são cansativas e tornam a escrita do autor, mesmo que simples e leve, arrastada. Mas, com um pano de fundo tão fascinante, Ernest Cline, conseguiu criar uma trama recheada de ação, com direito a batalhas, disputas e até namoros virtuais. Jogador Nº 1 também trabalha pitadas de drama e romance, e um pouco até de crítica social. A história é cheia de reviravoltas, de altos e baixos, de pequenos mistérios e missões que a deixam emocionante e viciante

Para quem gosta de enigmas, há muitos deles ao longo do livro, assim como referências de filmes, shows de televisão, músicas, acontecimentos históricos e, claro, videogames. Jogador Nº 1 é uma grande homenagem nostálgica aos anos 80 e a cultura nerd/geek. Para quem, como eu, não viveu essa época e não se identifica tanto com a cultura nerd/geek, as centenas de referências são ao mesmo tempo interessantes, já que nos fazem conhecer realidades diferentes, mas também cansativas. Contudo, adorei especialmente as citações de músicas ao longo da história, que acabam dando uma trilha sonora própria para Jogador Nº 1. As canções referenciadas combinam bem com os momentos narrados e é divertido ouvi-las durante a leitura.

Apesar de surpreendente, a trama de Jogador Nº 1 não é muito inovadora, o que não a deixa menos cativante. Contudo, é preciso assinalar que ela foi claramente construída com um público alvo muito específico em mente. Qualquer pessoa que se distancie do esteriótipo do garoto norte-americano, branco, nerd, antissocial e viciado em videogames, vai ter dificuldade de se identificar com o protagonista e com a história como um todo. O livro não investe em conflitos secundários e trava uma clássica jornada do herói “inesperado", o cara que ninguém valoriza, mas que acaba sendo o “salvador do mundo” simplesmente porque, por dentro, ele é muito incrível e inteligente. O que, claro, o garante a garota no final. É um grande clichê, o que não torna a história ruim, mas que tira um pouco do brilho para o leitor que, como eu, não se identifica com os esteriótipos que o protagonista representa.


OS PERSONAGENS

Como disse, a trama de Jogador Nº 1 gira em torno do protagonista, o que nos entrega personagens secundários rasos, que estão ali apenas para ajudar o mocinho. Mas, nem mesmo o herói é tão surpreendente. Wade é o nerd branco, gordo, antissocial, viciado em videogames e coisas antigas. Rejeitado por todos, ele é, na verdade, muito inteligente e talentoso por dentro. O que o faz soar arrogante por, o tempo todo, apontar como ele sabe todas as referências, como joga muito bem e é muito mais astuto digitalmente do que o resto da população “normal”. Por um lado, entendo que Wade represente muita gente por aí que, geralmente, não vira protagonista de livro juvenil. Mas, como eu não consegui me identificar com ele, também fui incapaz de gostar do personagem. Esperei todo o livro por uma mudança, fosse Wade tendo uma lição de humildade ao perceber que não era melhor que todo mundo, ou amadurecimento de entender que ser o rei do videogame não conserta seus problemas do mundo real, mas isso não aconteceu. Logo, também terminei Jogador Nº 1 sem me cativar a ele.

“Jogar videogames antigos sempre afastava minhas preocupações e me deixava relaxado. Quando me sentia deprimido e frustrado com a vida, só precisava apertar o botão do Jogador 1 e meus problemas sumiam de minha mente instantaneamente” pág. 22

A obra tem um bom número de personagens secundários que não foram bem aproveitados. O autor até criou personalidades interessantes (e representativas, com pessoas de diferentes etnias e sexualidades), mas que tiveram seu potencial desperdiçado, já que Jogador Nº 1 só foca no protagonista. Fiquei especialmente triste por Art3mis, minha personagem favorita e a mais injustiçada de todas da obra. Apesar de ficar claro que ela era tão inteligente e competente, se não mais, que Wade, ela está ali só para cumprir o papel de interesse romântico do protagonista. E nem o relacionamento entre eles agrada, já que soa resultado da insistência de Wade em uma paixonite de internet. A própria Art3mis, em determinado momento, chama a atenção para como Wade está apaixonado por uma ideia dela, um avatar, e não quem ela é de verdade. Mas, essa questão, que daria boas reflexões, é ignorada no final, quando eles encontram seu "felizes para sempre" (com Wade até bancando o herói da moça).

A EDIÇÃO

Essa edição de Jogador Nº 1 que tenho foi a segunda lançada pela Editora Leya, em 2015. A tradução é boa e o texto não apresenta qualquer tipo de erro. A diagramação tem alguns detalhes interessantes, como páginas pretas no início de cada nova parte, e a ilustração de três chaves dividindo o texto. Para ajudar na leitura, as páginas são amareladas e a fonte de um bom tamanho. Particularmente, prefiro a capa da primeira edição brasileira de Jogador Nº 1. Contudo, essa capa de 2015 também é bonita e combina com a obra, com o tom de azul neon, os pixels no fundo e a fonte do título bem parecida com as usadas em jogos dos anos 80.


CONCLUSÕES FINAIS

Jogador Nº 1 me conquistou bem mais do que eu imaginava. Com um pano de fundo interessante, que nos faz imaginar as grandes possibilidades para jogos de realidade virtual, a história intriga e emociona. Há bastantes cenas de ação, que apesar de um pouco cansativas graças a narrativa muito detalhista, proporcionam reviravoltas e altos e baixos que tornam a leitura bastante movimentada. Jogador Nº 1 ainda traz pitadas de drama, romance e crítica social, que mesmo não muito profundas, falam um pouco sobre como a tecnologia pode ser maravilhosa e mudar a vida das pessoas, assim como deixá-las viciadas, solitárias e distantes da realidade. 

Infelizmente, a trama é clichê e os personagens rasos, sendo que os secundários, apesar do grande potencial, foram desperdiçados para dar foco a um protagonista com o qual nem todo mundo vai se identificar. É fato que Jogador Nº 1 foi criado para um público muito específico: aficionados por videogames, cultura nerd e geek, em especial os garotos e homens. O que, claro, não é um problema, mas sim um aviso de que o livro pode desagradar quem não se encaixa tanto nesse público. Mas eu, que não sou tão fã de games, acabei gostando da história e tendo uma leitura cativante e divertida. O ar de nostalgia e as referências aos anos 80 são bem legais, e me fizeram conhecer melhor não só a época, mas assim como o universo dos apaixonados por games. Jogador Nº 1 não é um livro perfeito, mas que vale a pena a leitura (em especial com o filme baseado nele chegando aos cinemas em breve). Por isso, fica a recomendação de que cada um leia e tire suas próprias conclusões.

QUOTES FAVORITOS

“Três chaves escondidas abrem três portões guardados
E três boas qualidades deverão ser inerentes ao errante avaliado
Quem demonstrar ter os exigidos predicados
Chegará ao fim, onde o prêmio será alcançado” pág. 15

“No OASIS, qualquer pessoa podia se tornar quem e o que quisesse ser, sem revelar sua verdadeira identidade, porque o anonimato era garantido.” pág. 77

“– Você não vive no mundo real, Z. Pelo que me disse, acho que nunca viveu. Você é como eu. Vive dentro dessa ilusão. – Ela indicou o ambiente em que estávamos. – Você não tem como saber o que é amor de verdade.” pág. 236

Título: Jogador Nº 1
Título original: Ready Player One
Autor: Ernest Cline
Editora: Leya
ISBN: 9788544103166
Ano: 2015
Páginas: 466
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1 comentários:

  1. Ainda não conhecia esse livro, achei bem interessante :D

    http://submersa-em-palavras.blogspot.com.br/

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