20.2.16

Desafio de Escrita: Uma garota vestida de vermelho


Raios de luz invadem a escuridão dos meus sonhos. Eu não estava sonhando, percebo. Era tudo negro, um sono sem devaneios do meu inconsciente. Um sono exausto, como seu eu estivesse cansada demais para sonhar e me entregado a escuridão por horas, ou como se tivesse desmaiado por alguns segundos. Não sei dizer, na verdade. Se estava dormindo ou inconsciente ou um pouco dos dois. Apenas sei que meu cérebro luta contra a luminosidade solar, que tenta me manter no mesmo estado inerte do sono, tenta me manter nas sombras da minha própria mente, como se o mundo lá fora pudesse me machucar quando eu estivesse consciente, como os raios de sol que agora feriam meus olhos fechados. Talvez meu cérebro estivesse certo afinal. 

Deus, por Deus. Só me deixe quieta agora. Minha mente não quer despertar. Eu não quero despertar. Algo dentro de mim prevê que a escuridão é melhor do que quer seja que me espera quando abrir os olhos e eu acredito nesse instinto inesperado e infundado. Nesse instinto desesperado. Mas os neurônios do meu corpo começam a acordar também e percebo que a minha posição não é nada confortável. Metade do meu corpo está no macio estreito do que imagino ser um sofá e a outra metade pendurada contra o vazio. Minha nuca doí e o lado esquerdo do meu rosto está dormente. Mas a sensação mais estranha e, que mais me desperta, vem das minhas roupas.

Eu sinto o tecido contra a minha pele. Úmido. Não, não úmido. Pegajoso. Minha mão se arrasta, preguiçosa, contra o meu corpo e percebo que tanto a blusa que eu usava, quanto o short jeans minúsculo, estão cobertos por um líquido viscoso. Estranhamente, percebo enquanto flexiono os dedos, meus pés estão descalços. Solto, inconscientemente, ainda dormindo, quase acordada, um suspiro. Meu corpo me parece estranho, sobre esse sofá que não se parece em nada com a cama na qual eu deveria estar dormindo, e as roupas pegajosas parecem erradas. Eu estou confusa, mas ainda dormente pelo sono para fazer algo sobre isso. E quanto o meu olfato finalmente resolve se manifestar e, quando o cheiro me atinge, meus olhos imediatamente se arregalam.


A grande claridade repentina me cega e pisco, tentando entender. Como em outras manhãs, não é o cheiro do café forte e importado do vizinho que finalmente me faz despertar. É o odor de sangue. Ferrugem e sal em espirais dentro do meu nariz, da minha boca, sobre a minha língua, me dando ânsia de vômito. Grandes bolas de luz ainda turvam minha visão quando me curvo sobre a beirada sofá e tusso em vez de vomitar. Escuto a minha pulsação no ouvido, meu estômago se revira, mas o vermelho, o vermelho é como um tapa na cara.

Vermelho escarlate, eu penso. Mas mais profundo. Mais vermelho. E viscoso. Pegajoso sobre o chão. É como se alguém tivesse derramado latas e latas de tinta sobre o piso. Ou como se os elevadores de O Iluminado tivessem se aberto ali naquela sala e libertado sua onda de sangue falso. Mas o cheiro, o cheiro não mente. Não é tinta. Não é sangue cinematográfico. É real, como aquele que pulsa em chamas dentro das minhas veias agora. O sangue que cobre o chão não está completamente seco e escorrego um pouco quando me levanto do sofá com um pulo. 

Não chego a cair e toco o sofá tentando me equilibrar novamente. Não sei como não percebi antes, mas o tecido do móvel está encharcado do mesmo líquido que cobre o chão. Toco o meu corpo, na tentativa de me certificar que ainda sou real, que aquilo tudo não é um sonho macabro afinal. Eu sinto o toque dos meus dedos gelados sobre minha própria pele, mas, quando olho minhas mãos em seguida, volto a pensar que estou presa em um pesadelo. As palmas estão vermelhas e pegajosas, olho para baixo e percebo que estou completamente assim. Minhas roupas, a pele dos meus braços e pernas, até mesmo o anel prateado que uso no mindinho direito. Tudo pintado de vermelho, como se eu estive coberta por um manto de sangue. Olho para meus pés. Curiosamente estão limpos e as unhas do pé bem-feitas, pintadas de um azul céu. Esfrego os pés no chão com força, usando o sangue parcialmente seco sobre o piso para apagar a única parte do meu corpo que não fora maculada pelo vermelho, o que era perturbador. 


Eu olho ao redor, realmente apenas os meus pés ficaram intactos. A grande sala, completamente estranha para mim, estava pintada em vermelho. As cortinas, televisão, a mesa de centro, os livros na estante, o teto e até mesmo uma escada estreita no fundo do ambiente. A porta. O que um dia fora uma porta branca agora estava coberta por grandes machas de sangue. Meu Deus, tinha tanto sangue. Sangue por todos os lugares. Uma risada mórbida escapou dos meus lábios. Eu me sentia presa em uma pintura surrealista macabra. Uma garota vestida de vermelho em uma sala vermelha, eu chamaria a obra. Um nome inocente para o quadro que causaria pesadelos até nos mais corajosos críticos de arte. 

Não é o seu sangue, o pensamento óbvio me atingiu e me senti culpada logo após ficar aliviada. Havia sangue demais naquela sala para ter vindo de uma pessoa só e, mesmo que assutada até o último fio de cabelo, meu corpo parecia intacto. Todo o meu sangue preenchia as minhas veias, mesmo que a sanidade parecesse ter me abandonado naquele momento. Não fazia sentido. Tanto sangue em uma sala estranha. Como eu viera parar ali? E de onde viera aquele sangue? Será que eu tinha… eu poderia… Não consegui concluir meus pensamentos. Preferia não pensar. Não lembrar. Se a minha mente estava me poupando de memórias de como aquele ambiente trágico se construiu, eu que não me arriscaria a tentar recordar. Eu já não conseguiria dormir, de qualquer jeito, pelos próximos meses só por ter passado alguns minutos olhando para o cômodo coberto de sangue.


Eu tinha que sair dali. Nem quis pensar caso escapar não fosse uma opção. Mas antes de ao menos tentar a porta ou as janelas, uma musiquinha alegre encheu o cômodo, tirando as poucas gotas de coragem e racionalidade do meu ser. O barulho me levou até o centro da mesa, onde um celular estranhamente limpo estava cuidadosamente colocado no centro da mesa coberta de sangue. Peguei o aparelho sem hesitar e apertei o botão para atender a ligação. 

“Eu sei que tudo está confuso agora”, uma voz macia e masculina me atingiu antes mesmo de eu encostar o aparelho no ouvido.

“Quem está falando?”, surpreendi-me com o próprio som das palavras escapando na minha cabeça.

“Tudo vai ficar claro”, a voz continuou do outro lado, ignorando a minha pergunta, “branco no preto, em alguns segun...”.

“Está tudo vermelho. O maldito vermelho,”, interrompi novamente o estranho, sem conseguir impedir que as palavras fluíssem para fora de mim, “está por todo lugar. A porra do vermelho está grudada em meus olhos! É como se o sangue estivesse escorrendo ao meu redor, me afogando. Como seu estivesse ficado cega para as outras cores, só não para o maldito vermelho!”. 

“Venha para fora e tudo vai ficar claro”, a voz continuou calma, mesmo após eu ter gritado com ela.


“O quê?”, murmurei.

“A porta, use a porta e venha para fora. Não há vermelho aqui. Vai ficar tudo bem, contando que venha para fora”, ele continuou, sua voz suave como seda em meus ouvidos.

“Sem vermelho... Você promete?”, digo de forma trêmula, sem saber de onde aquelas palavras surgiam dentro de mim.

“Prometo”, disse com seriedade. “Sem vermelho aqui. Sem sangue. Tudo preto no branco, só eu e você”.

Fuja do vermelho, foi o que meu cérebro disse. Eu me sentia presa em um transe. As palavras na minha mente tinham a voz do homem do outro lado da linha. Venha para fora, passe pela porta e venha para mim. O outro lado da linha estava quieto agora, mas eu ainda ouvia o estranho na minha mente. Deixei o celular escapar das minhas mãos e nem percebi o seu baque surdo contra o piso. Minhas pernas pareciam ter vida própria e caminhavam para fora. Estranhamente, não me assustava desconhecer o quê, e quem, estava lá fora. 

Sem vermelho aqui. Sem sangue. As palavras do homem ecoaram em minha mente enquanto eu girava a maçaneta. Maior do que a certeza de que eu tinha que sair dali, que tinha que fugir do vermelho, era a minha vontade de ir em direção ao preto e o branco. Em direção a ele. Só eu e você. Relembrar sua voz acelerou meu coração, mas acalmou a minha mente. Abri a porta e a uma claridade repentina me cegou. Só pude distinguir uma sombra vindo em minha direção.



Esse texto faz parte do projeto Desafio de Escrita: 25 coisas sobre as quais escrever em 25 semanas, referente ao nº 22 da lista - Você tem sangue em suas roupas, mas não se lembra do que aconteceu

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12 comentários:

  1. Que texto lindo! As imagens também. Você escreve muito bem, parabéns! Bem legal esse projeto.

    Beijos,
    Leia a resenha de "Uma canção de amor"

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  2. olá, tudo bem?
    Texto legal!
    Adorei esse desafio, estimula muito a escrita. Tenho certeza que renderá bastante textos legais.

    BIO-LIVROS | PÁGINA | Produtos Natura

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    1. Obrigada! Fico feliz que tenha gostado do texto e do desafio!

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  3. Gostei da sua escrita, Ana, apesar do tema escolhido ser um pouco "dark" hehe.
    Abraços!

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  4. Enquanto imaginava o cenário, lembrei da cena que o Dexter entra no quarto com mais de 35 litros de sangues jogados e ele tem um ataque de pânico!
    Gostei muito da narrativa, me deixando muito curiosa mas não sei se você vai continuar a narração ou se era pra terminar assim... Mas quebrou a ansiedade não dizendo o que a esperava após a sombra. D:
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    1. Sou super fã de Dexter, mas, curiosamente, não me lembro dessa cena! kkk Mas ela, com certeza, deve ter ficado incrível! kkk Não, o conto termina assim mesmo, no suspense rs

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  5. Oi Ana!
    UAU!!!! :O
    Adorei o conto, fiquei bem curiosa para saber como a personagem chegou nessa situação! Que suspense!
    Será que tem continuação? 0:)

    Beijos,
    Sora - Meu Jardim de Livros

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    1. Obrigada Sora! kkk Por enquanto sem continuação, gosto de finais que deixam um gostinho por mais e uma pontinha de mistério!

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  6. Palavras eletrizantes, parabéns!
    Fui lendo e esperando desvendar de onde vinha o sangue afinal, mas você nos brindou com um belo mistério, adorei a surpresa mesmo!!!
    Belíssimas imagens também.

    Beijo, Van - Retrô Books
    http://balaiodelivros.blogspot.com.br/

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    1. Obrigada! <3 Fico muito, muito contente mesmo que tenha gostado!

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