24.2.16

Desafio de Escrita: O primeiro encontro de almas gêmeas

homem e mulher andando na rua

“Qual é o seu problema? Seu idiota”, as palavras escapam da minha boca antes que eu possa me controlar. 

Esse é definitivamente o pior dia da minha vida. O idiota que esbarrou em mim e me deu um banho de café escaldante me olha como se eu fosse uma maluca. Meu casaco está encharcado e minhas coisas estão espalhadas pela calçada. Estou atrasada, com o celular sem bateria e meu cabelo está todo bagunçado por causa do vento forte. Me ajoelho para pegar meus objetos e o restante da minha dignidade que estão no chão e uma pedrinha rasga a minha meia-calça, deixando um arranhado vermelho na minha pele. Qual é universo, me dá um tempo! 

“Nossa, eu sinto muito”, o cara do café ainda está parado na minha frente, me olhando de forma estranha. Ele analisa a bagunça irritada em que estou nesse momento e faz uma careta, “sinto muito, muito mesmo”. Ah, por favor. Eu reviro os olhos para suas desculpas patéticas. 

“Só olha por onde anda cara, pelo amor de Deus”, resmungo em resposta, “olha o que você fez com o meu casaco. Com o meu livro!”, esfrego o exemplar novinho da obra que eu estava lendo, mas que agora está toda molhada e manchada por causa do banho acidental de café, na cara dele. O estranho faz outra careta, mas sorri logo em seguida. Qual é o problema desse homem?

“Ah, eu amo esse livro!”, declara todo animado, como se eu me importasse. “Você já chegou naquela parte em que a mãe do garot...”

Ai. Meu. Deus. Qual é o seu problema?”, praticamente grito com o cara do café, interrompendo-o. “Você já destruiu o meu livro, agora vai me dar um spoiler?”. Ele me olha sem palavras diante da acusação e bufo, irritada. “Sai da minha frente”, rosno e saio andando apressada.


Não dei nem cinco passos direito quando o maluco me alcança novamente. 

“Ei, foi sem querer, eu juro”, ele anda ao meu lado e lanço o meu melhor olhar de irritação mortal em sua direção. Percebo pela primeira vez que ele é mais alto que eu e muito, muito bonito. Olhos castanhos gentis por trás de um óculos nerd e cabelos pretos bem escuros. Sério universo, porque o idiota do café tinha que ser uma gracinha?

“Tá, tanto faz”, murmuro e continuo meu caminho, me forçando a olhar para frente. Contudo, o cara ainda anda ao meu lado, sem qualquer dificuldade aparente em acompanhar o meu ritmo de quem está muito, muito atrasada e vai levar uma bronca da chefe. Acelero o passo e ele faz o mesmo. Paro de repente e ele me imita.

“Ok cara bonitinho, além de derramar café em pessoas estranhas na rua, você é algum tipo de perseguidor maluco?”, uso o meu tom de voz de 'não estou para brincadeiras, estranho', mas o cara do café está me lançando aquele mesmo olhar esquisito de antes, agora com um sorrisinho satisfeito – que o faz parecer um assassino de série que acabou de encontrar sua próxima vítima. É nesse momento que começo a fugir?

“Você me acha bonito?”, ele finalmente diz e fecho a cara.


“O. Que. Você. Quer. De. Mim?”, pergunto entre dentes e o cara do café parece assutado, pela primeira vez.

“Ah, eu queria pedir desculpas por ter derramado ca...”, ele começa, mas eu reviro os olhos.

“Está bem, está bem, está desculpado”, digo a contragosto, só para ver se ele me deixa em paz e volto a andar. Sinto um puxão no braço e paro.

“Não, sério. Me desculpa. Me deixa ao menos pagar pelo casaco e pelo livro. Eu arruinei os dois”, o estranho diz, em um tom muito, muito arrependido. Quase sinto pena.

“Não, não precisa”, falo, olhando irritada para sua mão que ainda segura o meu braço. Ele percebe o erro e me solta, mas não parece desistir.

“Ah, por favor, me deixa te pagar um café então, para compensar”, ele está quase implorando agora e fica muito bonitinho enquanto tenta me convencer a reparar o seu erro, mas com o casaco ainda molhado pelo café que ele derramou em mim, a última coisa que quero agora é uma bebida.

“Não, obrigada. Estou atrasada, muito atrasada”, me viro e quase saio correndo, tentando me afastar de uma vez do estranho, mas novamente ele me segue e anda ao meu lado. Isso já está ficando irritante.

“Me deixa pelo menos comprar outro livro para você, então, você pode me dar seu telefone e combinamos um lugar para que eu possa te entregá-lo”, faço uma careta diante da proposta e ele sugere mandar o bendito livro para a minha casa. 

“Ah claro, com certeza vou dar meu telefone ou meu endereço para um esquisito qualquer que, além de derramar café em mim, faz questão de me seguir pela rua”, digo de forma ácida e ele segura meu ombro, me obrigando a parar novamente. Meu. Pai. Do. Céu. Eu vou matar esse homem aqui mesmo, no meio da rua.


“Por favor, me deixe te compensar de alguma maneira! Se não, jamais poderei me perdoar por ter estragado a manhã de uma mulher tão bonita derramando o meu café nela”, ele realmente está implorando dessa vez e não consigo conter o sorriso que surge nos meus lábios. 

“Você me acha bonita?”, digo de forma debochada e ele ignora minha pergunta, pedindo novamente que eu o deixe me compensar. Acabo aceitando e nos trocamos números de telefone. Ele anota o seu celular no dorso da minha mão, quando me lembro de que o meu próprio aparelho estava descarregado. Finalmente nos despedimos, cada um seguindo para um lado.

Mais tarde, quando chego no trabalho e, milagrosamente, minha chefe não percebe o meu atraso, me lembro de que não perguntei o nome do cara do café e nem ele o meu. À noite, em casa, com o celular carregado, finalmente tomo coragem e mando uma mensagem para ele, fazendo piada com o fato de nem sabermos como o outro se chama. Ele me responde em poucos minutos e logo estamos marcando nosso primeiro encontro. 

Primeiro encontro oficial, pelo menos, pois a história de como nos conhecemos por causa de um café derramado foi a trama que divertiu os nossos amigos toda vez que nos perguntavam sobre o início do nosso namoro. Hoje, essa história também diverte os meus filhos e espero entreter meus netos também com esse mesmo conto já tantas vezes repetido. Afinal, é assim que almas gêmeas sempre se conhecem, com um empurrão do destino. Às vezes com um café derramado em um encontro desastroso. E hilário.


Esse texto faz parte do projeto Desafio de Escrita: 25 coisas sobre as quais escrever em 25 semanas, referente ao nº 2 da lista - Você conheceu sua alma gêmea.

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8 comentários:

  1. Oi Ana, tudo bem?
    Adorei o seu texto, espero que venha muitos e muitos mais! Ah, ja quero um livro seu também, só dizer que eu leio (haha).
    Abraços,

    Vinicius
    omeninoeolivro.blogspot.com

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    1. Obrigada! kkk E pode deixar que mais contos virão em breve! O livro nem tanto, mas eu bem que queria escrever uma obra completa! É um dos meus maiores sonhos...

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  2. oooooi
    tudo bem?
    Já comentei por aqui que eu adorei a ideia deste desafio, haha.
    Parabéns por mais esse texto. ^^
    Conseguiu transmitir muito bem os sentimentos dos personagens. Uma cena tão cotidiana que gerou um amor cheio de bons frutos. Adorei!

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    1. Que bacana que gostou Dani, do desafio e do texto! <3

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  3. Oi Ana,
    Ah acho que esse é meu favorito agora HAHA ri e ainda finalizei com sorrisão.
    Mas cara, estraga o livro mas não me dá spoiler HAHAHA

    tenha uma ótima quinta =D
    Nana - Obsession Valley

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    1. Ah Nana, fico muito feliz que tenha gostado do conto e que ele tenha sido divertido, era justamente o que eu queria! Exatamente, coloca fogo no meu livro, mas não me conta o final! rs

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  4. Mesmo em um encontro por acaso a modernidade ajuda E MUITO.
    Se não fossem as várias redes sociais malucas, hoje eu não teria contato com o cara que esbarrei em um evento dos Escoteiros e que estou conhecendo... :3
    Adorei. Continue com esse desafio de escrita!!!

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    1. kkk que história bacana! Bom saber então que a minha história não é tão surreal assim e que encontros ao acaso acabam juntando pessoas! rs

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