23.12.13

Falando por Experiência #3: Natal



Não gosto muito de Natal. “Odiar” é um verbo muito forte, por isso prefiro não usá-lo. No passado, como qualquer criança ama ganhar presentes e comer bastante, eu devo ter gostado da festa. Apesar de que missa obrigatória antes das festividades será tediosa e pouca atrativa em qualquer idade. Hoje pouco aprecio da coisa toda. As árvores de plástico com luzes brilhantes, o sentimento de renascimento, a ansiedade pelo ano novo... Tudo muito bonito nas fotos, nos filmes, nas músicas. Nas pessoas... Mas tudo muito vazio para mim. 
          Há mais de dois mil anos um grande homem nasceu e marcou para sempre a história do mundo. O dia 25 de dezembro foi eternamente marcado no calendário como um dia especial. Tão especial que até o 24 ganhou um pouco do seu glamour. Mas agora, tirando uma pequena minoria devota, não se trata mais do que presentes, comidas gordas e a família inteira reunida em uma festa, que como qualquer outra que reúna mais de cinco pessoas com pares similares de cromossomos e uma vida inteira de conivência e “picuinhas”, se torna insuportável para aqueles que não conseguem fingir que está tudo bem - principalmente os que estão a base de água e suquinho. 
          Algo que nunca vou entender é a necessidade não só de se estar feliz, mas também de mostrar sua tal felicidade. Quando se é jovem deve-se estar feliz, afinal tem toda a vida pela frente. Quando se é velho deve-se estar feliz por ainda estar vivo e poder compartilhar das “muitas” felicidades do ato de viver. Quando é Natal – e também ano novo - é obrigatório estar em seu nível mais elevado de felicidade, mesmo que você pouco entenda ou mesmo se importe com o verdadeiro sentido do feriado que está aproveitando. Oh não, você deve ficar feliz e grato por estar cercado pela família e ter de ouvir aquelas perguntas inconvenientes, aguentar situações embaraçosas e pessoas malucas. Deve-se ficar feliz e grato pelos presentes que vai ganhar, mesmo que não seja aqueles que você queria ou mesmo que seus pais tenham que se endividar pelo resto do ano seguinte apenas para você ter aquele objeto que logo se tornará obsoleto. Mas é tradição, afinal, corrompida e distorcida pelo capitalismo ocidental, mas ainda tradição.
          Eu gosto de tradições, não se enganem. O fato delas viverem fora do próprio tempo, perpetuando-se por uma cultura e povo, vencendo até mesmo o mito da evolução, transformam as tradições, para mim, uma das maiores conquistas da humanidade. A verdadeira e única real imortalidade. Uma tradição é um pedaço do passado que sobreviveu. Mas quando ela diverge do que realmente é, torna-se obsoleta. Sem sentido e, logo, dispensável. Almoçar e jantar em casa, com a família toda reunida sobre uma mesma mesa, era uma tradição. Mas quando essa mesma tradição se tornou inviável devido a apertada e corrida rotina cotidiana, ela perdeu seu valor e foi, por uma grande maioria, esquecida. Casar-se na Igreja de vestido branco é uma tradição. Mas quando a cerimônia deixou de ser religiosa, espiritual, e tornou-se um evento social, para inflamar o ego e o status, tornou-se também dispensável. 
          Se o Natal tornou-se dispensável? Honestamente, não sei dizer. Nunca passei um ano sequer, não por escolha própria claro, sem comemorar a bendita data. E não sei se me acostumaria a deixar o feriado passar em branco. Pode não ser uma tradição em sua verdadeira essência, mas o Natal tornou-se mais do que um costume. É um hábito de todo ocidental. E nascida e criada deste lado do planeta, é um hábito para mim também. Se é uma diversão, já é outra história. O único entretenimento que tenho é observar as pessoas suando para deixar tudo perfeito, graças a obrigatória tarefa natalina de se estar feliz, na maioria das vezes com muito pouco sucesso. Como, bebo, abro presentes. Dou abraços – outro hábito que pouco aprecio – e digo “Feliz Natal” mesmo não acreditando nas palavras que saem da minha boca. Como aqueles enfeites eletrônicos de Papai Noel, danço conforme a música. Mas eu tento, juro, me divertir. Tento esconder a melancolia que a data me traz e por alguns segundos escassos consigo sentir aquele formigamentozinho no fundo do peito que me faz sorrir. Que me faz ser grata. Que me faz feliz. Que me faz acreditar que pode até ser que o Natal ainda seja realmente alguma coisa da qual se deva comemorar. Mas a sensação de felicidade natalina não dura muito. Mas é o suficiente. Impressionantemente consegue compensar todas as 47 horas, 59 minutos e 55 segundos do Natal que não gosto. Do Natal hipócrita e pretensioso. Do Natal fingido e sem significado. Mas esses 5 segundos de alguma coisa ainda não conseguiram me fazer gostar da data ou mesmo lembrá-la com carinho ou qualquer outra coisa que não fosse tédio e desprezo mortais. 
          Então, Feliz Natal. Será?

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7 comentários:

  1. Oi Ana!
    " Mas é o suficiente. Impressionantemente consegue compensar todas as 47 horas, 59 minutos e 55 segundos do Natal que não gosto."
    Com licença poética vou usar essa frase de seu texto para substituir a saudade, a correria, o stress, o trânsito, as filas, a multidão, o exagero nas ceias, o superficial ...
    Com formigamentozinho (adoooooorei isso) desejo um Natal Iluminado.
    Que o brilho daquela estrela no alto da manjedoura há mais de 2000 mil anos esteja contigo aonde vc estiver!
    Bjss

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    Respostas
    1. Oi,

      fico feliz que tenha gostado do texto! Um Natal incrível para você e toda a sua família! :D

      Bjs

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  2. Ana, você falou certas verdades que as pessoas precisavam ouvir.
    Adorei seu texto.

    Http://www.amolivrosdeverdade.blogspot.com.br/

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  3. Oi Aninha,
    eu também não gosto muito do Natal. quando eu era criança meus familiares costumavam se juntar para comemorar a data, e eu achava divertido pelo fato de estarmos sempre ali reunidos e tudo o mais.
    hoje, como não há mais crianças na minha família, este costume se perdeu.
    na noite de Natal deste ano, eu passei com uma amiga minha pois tínhamos uma festa para ir, mas meus pais ficaram em casa, e se não fosse por esta minha amiga, teria ficado assim também.
    concordo com o que você falou. acho que foi muita coragem da sua parte vir falar tudo isso aqui, pois acredito que pouca gente pensa assim :S
    mesmo assim, Feliz Natal hahaha

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  4. Concordo com vc que realmente a cultura capitalista vem transformando o natal. Deixamos de adorar aquele que realmente morreu por nós, para apontar a importância num personagem fajuta chamado papai noel.
    O feriado passou a ser mais um dia da prática do consumo. Beber, comer, dançar, festejar... é o que interessa.
    Acho isso um pouco deprimente, mas confesso que em parte contribuo para que esta prática se perpetue. :(

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  5. Gostei bastante do texto..o Natal é meu feriado preferido (o único) antes como de praxe td a familia se reunia hj em dia é cada um pro seu lado...

    http://livroaoavesso.blogspot.com.br/

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  6. Parabéns pelo texto. Ele é interessante pelo fato de expôr o que o Natal têm sido: capitalismo, presentes, papai noel, "mostrar felicidade" e o esquecimento do real motivo da comemoração.

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