11.7.13

Resenha: Doce Vampira - Ju Lund

Título: Doce Vampira
Autora: Ju Lund
Editora: Ornitorrinco
ISBN: 9788565623032
Ano: 2012
Páginas: 210
Classificação: 5/5 [ótimo] - favorito
Sinopse: Eduarda é uma jovem calada e discreta quando conhece a sensual Ester. A amizade das duas cresce com o tempo e um novo sentimento inesperado desperta. Agora Duda tem que enfrentar dois novos problemas: estar apaixonada por Ester e encarar a sua família, e, também, enfrentar a sociedade para poder continuar com sua Doce Vampira. Será que esse amor será forte o suficiente?
          
Em um mundo onde vampiros e humanos convivem, teoricamente, de forma pacífica, a convivência entre as duas raças está longe de ser perfeita. Apesar dos direitos adquiridos, de serem parte da sociedade, os vampiros não deixam de ser vistos como aberrações, demônios com presas. É nessa realidade que vive Eduarda, uma garota humana completamente comum. No último ano de escola, os pais de Duda resolvem mudá-la para uma escola particular, com intuito de deixar a filha mais preparada para a faculdade. Apesar da relutância da garota, ela não tem outra saída a não ser frequentar a escola nova, onde não faz nenhum amigo a princípio. 

 Logo nos primeiros dias de Duda, outra estudante novata aparece. Ester é uma garota linda, obviamente de família rica, mas que não se enturma com os outros alunos pelo fato de ser uma vampira. Diferentemente dos outros estudantes, Duda logo faz amizade com a bela vampira, sentimento que cresce rapidamente e começa a se transformar em algo a mais. Quando Duda finalmente encontra coragem para se declarar a Ester, acaba descobrindo que a vampira sente o mesmo por ela e, assim, elas começam a ficar juntas.
“Entre antigas estantes de livros importados da biblioteca municipal da cidade de Sal do Sul, o nosso primeiro beijo aconteceu. E ele foi doce, ao mesmo tempo em que profundo e naturalmente perfeito. Nossos lábios pareciam moldados um para o outro, e Ester mantinha um ritmo ora delicado e ora inebriante. Outras vezes, de tirar o fôlego, a ponto de deixar todo o meu corpo tremendo.” (Pág. 28)
O namoro escondido entre Ester e Duda se mostra delicioso e ambas ficam felizes com a relação. Mas, tal felicidade dura pouco. Aos poucos, outros alunos começam a perceber que existe mais que amizade entre Ester e Eduarda e, logo, tais boatos chegam aos ouvidos da família da humana, que acaba separando as garotas. Longe de sua vampira, Duda volta para a triste rotina que tinha antes de conhecer Ester, que, agora, é ainda pior por causa da saudade que sente da vampira.
“-Eu não quero ficar com você para sempre. Eu preciso. – disse com sua voz sedosa e profunda. – Eu não choraria se fosse embora. Eu morreria.” (Pág. 122)
Entretanto, Ester mostra que está disposta a lutar pelo que sente, assim como Duda. As duas começam a se comunicar com a ajuda de uma professora da escola e, com a chegada de seu aniversário de 18 anos, a humana propõe que as duas fujam para viver seu amor. Assim, na noite após seu aniversário, Duda foge com Ester. Antes de decidirem definitivamente para onde vão, as garotas se alojam na casa da família de Ester. Lá, Duda finalmente começa a realmente conhecer o mundo de Ester.

Na bela casa e cercada com os empregados e família de Ester, Duda começa a perceber que sabe muito pouco sobre sua vampira. Conforme o tempo passa, a convivência entre as duas começa a deixar de ser prazerosa, um sonho realizado, e se torna um relacionamento real, com cobranças e expectativas. Ao perceber que Ester, assim como sua família, escondem segredos, Duda começa a perceber, pela primeira vez, que um relacionamento entre pessoas de duas raças diferentes têm grandes barreiras. 
“Tem dias em que não há uma citação bonita para se dizer. Tem dias que simplesmente acaba.” (Pág. 124)
Quando o assunto “transformação” surge, Duda começa a ver as impossibilidades em sua relação com Ester. A vampira e sua família desejam que Duda se transforme em vampira e eternize seu amor com Ester, mas, para uma garota de 18 anos, essa é uma decisão definitiva demais para ser tomada com um prazo de tempo. Conforme o prazo dado pela família de sua amada começa a se esgotar, Duda vai aos poucos admitindo que ainda não quer se tornar uma vampira, por mais que ame Ester. Assim, as duas se separam novamente, dessa vez, por escolha de Duda. Quando a humana volta a sua vida normal e a casa de sua família, que, estranhamente, está mais amável, percebe que nada jamais será o mesmo depois de Ester. Ainda amando profundamente a vampira, Duda pensa em voltar atrás em sua decisão. Será que é tarde demais para isso? Ou o amor pode vencer todas as barreiras? Inclusive, barreiras familiares, sociais e, até mesmo, políticas?
“Juntei o que me restava de vontade e emergi a tempo de ouvir, já na superfície, a voz da minha vampira: ‘Às vezes, só amar e ter coragem não são suficientes; às vezes, é preciso fazer a escolha na hora exata’.” (Pág. 117)
“Doce Vampira” poderia, a princípio, ser considerado apenas mais um livro sobre vampiros, mas, com detalhes pequenos e importantes, essa obra acaba se tornando inovadora, única e, simplesmente, encantadora. Tudo começa com a protagonista, uma garota humana que se apaixona por uma garota vampira. Não bastado os preconceitos de relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo, o casal encontra mais um preconceito alimentado pelo fato de serem de raças diferentes. Em uma relação vista socialmente como errada, as garotas têm de lidar com o preconceito da sociedade, mas, também, com os preconceitos que carregam em si mesmas. Ester não consegue admitir um futuro no relacionamento onde as duas não sejam da mesma raça e Duda não consegue suportar as pressões e diferenças entre a realidade de sua amada e a realidade na qual fora criada.

Externamente ao romance e conflitos das garotas, temos um cenário político-social onde duas raças não sabem conviver de forma concreta. O Governo tenta resolver a situação, criando direitos e leis, mas nos dois lados, tanto em humanos quanto vampiros, surgem organizações preparadas para defender sua raça. Em dado momento, a história de Ester e Duda se entrelaça a esse conflito maior quando a garota humana percebe que há muito mais em jogo no mundo de sua amada do que ela realmente sabia. O amor de Duda acaba a tornando uma vítima nessa “Guerra Fria” entre humanos e vampiros, que promete não ser tão fria assim em um futuro próximo.

Misturando realidade com ficção, dando toques de românticos, distópicos e críticos, Lund criou uma história gostosa de ler, que flui de forma rápida e natural. A narração em primeira pessoa da autora ficou perfeita, condiz com o perfil da protagonista/narradora e conquista o leitor logo no início. Achei legal a autora colocar um capítulo (o XVII – Revivendo Paris) narrado pela Ester, deu um toque especial ao livro e um gostinho de quero mais no leitor. Seria legal se a Lund escrevesse mais histórias na voz da nossa vampira, nem que fossem contos sobre sua vida antes de ser vampira ou antes de conhecer a Duda. A autora também acertou em cheio na trama, todos os acontecimentos foram bem elaborados e desenvolvidos, mas penso que ela poderia ter alongado um pouco mais os dois primeiros capítulos, principalmente o segundo, que conta como se desenvolveu o relacionamento da Duda e da Ester. 

Quanto aos personagens, a autora os criou de forma tão completa, que eles praticamente ganham vida diante nossos olhos. Todos têm personalidades, histórias e papel na trama bem definidos. Começo falando da nossa protagonista, a humana Eduarda. Duda é uma garota comum, mas cuja vida ganha novos parâmetros ao conhecer Ester. Achei interessante como a autora mostrou que, apesar da garota amar a vampira, ela não se entregou imediatamente ao mundo da amada, isso deixou a história das duas um pouco mais real e cativante. Imagine você na situação da Duda, quem não ficaria assustado e acabaria dando um passo para trás, escolhendo ficar na sua zona de conforto? Foi legal também o modo como a garota amadureceu e percebeu que, para ficar junto da Ester, ela precisaria ceder e mudar certos aspectos de sua vida. E, claro, aceitar que o mundo tem problemas muito maiores que os conflitos entre ela e Ester. Falando na nossa doce vampira, adianto que é impossível não amá-la. Ester é bonita, elegante e inteligente, como a maioria dos vampiros. Mas, ela possui um carisma e personalidade doce que não conquista apenas a Duda, mas também o leitor. Os outros vampiros e personagens humanos também foram marcantes, mas são completamente ofuscados diante esse casal super fofo.

Uma das coisas que mais me fascinou nesse livro foi justamente o fato de uma personagem feminina e um casal homossexual me fazer suspirar como em qualquer outro livro de romance. Sou heterossexual, apesar de achar que esse é um fato que não muda em absolutamente nada a pessoa que sou, e nada tenho contra pessoas que seguem outras opções sexuais, afinal essa é uma escolha ou afinidade pessoal que, novamente, nada interfere no caráter de alguém. Entretanto, é impossível não ficar com um pé atrás na hora de começar “Doce Vampira”, visto que ele aborda um romance gay, não muito comum nos livros que vemos por aí, e que a maioria de nós teve uma criação tipicamente brasileira, extremamente religiosa e conservadora. Mas, o assunto é tratado de forma tão tranquila pela autora, mesmo que ela acabe criticando o preconceito ao homossexualismo, que é impossível não relaxar também e acabar curtindo a história, como se fosse um romance como qualquer outro. 

“Doce Vampira” flui com tanta naturalidade, que li o livro em praticamente dois dias e fiquei louca pela continuação. O final foi perfeito, com um toque meio “Laranja Mecânica” (quem leu o livro e também conhece a história do Alex vai entender), e completamente intrigante. Confesso que, apesar de ter boas expectativas para o livro, não esperava gostar tanto da história e me apaixonar pelo casal protagonista. A surpresa de ter em mãos uma história tão boa, melhor do que eu esperava, apenas serviu para me fazer gostar ainda mais do livro.

Algo que também desejo comentar é que percebi como o preconceito está inserido na nossa cultura quando comecei a escrever essa resenha, de um livro com um casal gay, mas tive medo de usar a palavra "gay", pensando se isso seria ofensivo ou não. O fato de termos medo de usar termos que possam gerar preconceito mostra como realmente somos preconceituosos e não aceitamos completa e verdadeiramente que esse tipo de relação não difere basicamente em nada de uma relação heterossexual. Realmente temos que lutar contra esse preconceito que passa de geração em geração, completamente despercebido, mas que fica gravado no fundo da nossa mente, e lutar para que ele pare por aqui e não passe para as gerações futuras. E toda essa minha reflexão é graças a “Doce Vampira”, que além de me divertir, me fez pensar bastante. Parabenizo a autora pela coragem e pela destreza de passar uma mensagem de forma tão sutil, mas marcante. Agradeço imensamente pela oportunidade de ler o livro e desejo a Lund todo o sucesso do mundo, com esse e todos os outros livros que vierem pela frente. Realmente espero ter oportunidade de ler outras histórias da autora, afinal ela já conseguiu me conquistar profundamente com “Doce Vampira”.

A editora também fez um trabalho incrível com o livro. As páginas amareladas deixaram a leitura mais rápida e confortável, assim como a fonte e tamanho das letras. Amei os detalhes no início de cada capítulo, eles deram um toque especial à edição. Outra coisa que adorei foi a capa do livro, que, apesar de simples, é bonita e transmite um pouco da ideia e estilo da história. 
“Existem dias em que nos achamos perdidos e que tudo parece errado. Mas a vida não é tão complicada... Somos nós que a tornamos mais leve ou mais pesada. E hoje é o dia em que reencontrei a mim mesma. (...) mas a paz que sentia ainda não era completa. Tinha a impressão de que faltava algo e talvez descobrisse o que era no templo. Por toda a minha vida, senti esse vazio, e ele estava aqui de novo, menor, mas insistente. Faltava Ester, mas quem era Ester?” (Pág. 208)


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17 comentários:

  1. Como postar aqui um comentário? Simplesmente amei sua resenha, que é completa e super pessoal. Não tenho palavras para agradecer!!! Mil bjokas, muito obrigada e pode ter certeza que terá a continuação em mãos (breve)!! JU Lund

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  2. Não conhecia esse livro ainda. Vou anotar a dica aqui e parabéns pela resenha.

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  3. Também gostei muito deste livro.
    Bjs, Rose.

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  4. Apesar do tema estar bem batido, a história parece ser um bom passatempo

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  5. Primeira vez que vejo um livro que envolve o mundo vampiro e um casal homossexual, muito diferente. Confesso, que tenho meus receios em ler mais pelo que vejo a obra é tão bem trabalhada que não importamos tanto se o casal de protagonistas é ou não heterossexual.

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  6. Gostei de saber que a Duda não fica uma deslumbrada psicótica e na primeira oportunidade já queira virar imortal rsrs ela se mostrou uma personagem sã. Fiquei bastante curiosa para ler

    Beijos
    www.passaporteliterario.com

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  7. Oi amiga, vc tem razão quanto ao livro, é sobre vampiros, mais super inovador ao mesmo tempo, percebi pela sua resenha que é carregado de fatos importantes, como o amor entre duas mulheres, escolhas importantes, ou seja cheio de valores que nos faz pensar...
    Adorei saber que este livro está entre seus favoritos, eu gostaria de ler..
    Haa desculpa sumir, ando numa ressaca braba...


    Beijos Mila
    http://www.dailyofbooks.blogspot.com.br/

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  8. Adoreei a sinopse apesar de ser uma estória de vampiros é bem diferente do habitual que estamos acostumadas =]

    http://livroaoavesso.blogspot.com.br/

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  9. Bem do jeito que você colocou parece interessante a estoria mas não faz meu estilo de leitura, quem sabe um dia

    bjos

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  10. Bem, não vou dizer que adorei... Mais gostei de algumas coisas que você diz sobre a história das personagens e vou tentar ler e entender mais um pouco da história das duas. Beijos.

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  11. Esse livro parecer ser ótimo e retrata ótimos ponto da sociedade que temos hoje. Estou ansiosa para ler, ainda mais sendo de uma autora brasileira.

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  12. Adorei a resenha! A temática me lembrou até um pouco True Blood, quero mto ler! to curiosa.. bjos

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  13. Estou enamorando este livro e após ler a sua resenha aumentou minha paixão.
    Conhecerei a autora na Bienal e quero poder parabeniza-la pessoalmente pela obra.

    ótima resenha, parabéns!!
    Ni
    Cia do Leitor

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  14. Muito boa essa trama. Essa é mais uma resenha que diz bem dele, deu pra notar que a trama é bem desenvolvida e boa de ler. A maioria das outras resenhas que vi está assim, então o livro deve mesmo ser bom.

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  15. Eu também acho que o tema vampiro já está um pouco batido, mas assim como você, acho que esse livro foi inovador nessa questão de trazer um casal gay como protagonistas. Achei legal porquê não bate apenas na questão casal gay, mas aborda também raças diferentes, etc. Um prato cheio pra debates e mais debates em relação a essas questões. Fiquei bem curioso pra ler.

    @_Dom_Dom

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  16. Desde a primeira vez que li uma resenha de Doce Vampira me apaixonei.
    Confesso que quando li o título pensei "Mas uma história chata sobre o amor de uma mortal e um vampiro." De fato, trata-se de uma história de amor entre uma mortal e umA vampirA! Foi isso que despertou minha curiosidade.
    Nunca antes tinha visto ou ouvido falar de um livro que tivesse como protagonistas um casal homossexual. Um tema que tem sido bastante repercutido ultimamente e gerado discussões a respeito.
    E estou ainda mais empolgada porque hoje descobri que a escritora é brasileira. Eu PRECISO desse livro!

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  17. ah fiquei curiosa, e você tem razão quando falou que somos preconceituosos sem perceber e que isto está enraizado na nossa cultura, eu só conheci um casal gay em toda a minha leitura e os amooooo muito *-* Alec e Magnus Bane de Instrumentos Mortais e fiquei curiosa com esse achei a capa linda *-* a sua resenha de deixou super empolgada não só de saber que tem romance e sobrenatural mais também que tem uma luta muito maior que isso. Eu já até procurei para comprar mais só te no site da própria editora =/

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